A guerra no Irã continua a impactar os bolsos dos americanos, com custos de combustível significativamente mais altos do que em qualquer outro país, segundo dados recentes. Enquanto a administração Trump defende que os custos da guerra serão justificados pela prosperidade econômica, suas políticas podem estar exacerbando o problema. Consumidores dos EUA já arcaram com uma média de US$ 471 a mais em preços de combustível desde o início do conflito, de acordo com um relatório do Centre for Research on Energy and Clean Air (CREA). Isso representa quase oito vezes a média global de cerca de US$ 60 em custos energéticos adicionais por pessoa.
Em termos globais, os EUA gastaram US$ 160 bilhões em custos de combustível elevados, seguidos pela China (US$ 54 bilhões) e Canadá (US$ 17 bilhões). A família americana média já sentiu um impacto de cerca de US$ 2.000, considerando o aumento nos preços da gasolina, passagens aéreas e inflação geral devido ao transporte e às disrupções na cadeia de suprimentos nos últimos sete meses. O presidente Trump tem tentado minimizar as preocupações com os custos, argumentando que a guerra é necessária para impedir o Irã de obter armas nucleares e que os EUA estão "ganhando uma fortuna" com a produção de energia.
A dependência americana e o custo da energia
A disparidade nos custos de energia para os americanos não é um fenômeno novo, mas a guerra no Irã o amplificou. Embora as tensões globais na oferta de energia tenham elevado os preços mundialmente, o impacto desproporcional nos EUA é atribuído à estrutura da economia e da cultura do país, centradas no petróleo. Comparando os EUA com países europeus de renda similar, percebe-se o efeito de décadas de preços de combustível mais baixos e menor ênfase em transporte sustentável. Essa estrutura leva tempo e esforço para ser revertida.
Os EUA estão particularmente expostos a custos de combustível mais altos por dependerem de taxas do mercado global, mesmo sendo um grande produtor de diesel. No entanto, o peso energético maior sobre os consumidores americanos se deve, em grande parte, à sua dependência do petróleo em detrimento de fontes de energia mais sustentáveis. A adoção de veículos elétricos (VEs) é menor nos EUA, e os carros a gasolina, menos eficientes, percorrem distâncias maiores, resultando em um consumo de combustível superior ao de outros países.
Políticas internas e o ciclo de volatilidade
O relatório do CREA aponta uma correlação positiva entre países com maior participação de mercado de VEs — como Noruega, Suécia, Finlândia, Holanda e Bélgica — e a economia em custos de combustível por pessoa. Globalmente, as vendas de VEs dispararam com o aumento dos preços dos combustíveis. Em contraste, nos EUA, apenas 7,3% das vendas de veículos novos foram de VEs plug-in no mesmo período. Motoristas americanos que migraram para carros elétricos viram um aumento de apenas US$ 17 nos custos de carregamento desde março, em comparação com os aumentos significativos nos custos de combustíveis fósseis.
Lauri Myllyvirta, cofundador do CREA e autor do relatório, sugere que esse padrão tende a continuar devido a uma série de mudanças nas políticas dos EUA. A administração Trump desincentivou tanto a compra de VEs por americanos quanto a fabricação de veículos eficientes por montadoras. O fim do crédito fiscal de US$ 7.500 para VEs novos, em setembro de 2025, foi citado por analistas como um fator que achatou a demanda por VEs e levou empresas como a Ford a reduzir a produção de carros totalmente elétricos em favor de híbridos.
Implicações para o futuro energético dos EUA
Novas normas de economia de combustível, que flexibilizaram os requisitos regulatórios da era Biden para eficiência energética, foram lançadas pelo presidente. Enquanto Trump argumentou que isso tornaria os carros mais acessíveis, ambientalistas alertam que a medida pode elevar os custos de combustível e anular qualquer economia nos veículos. Myllyvirta prevê que os custos de combustível para americanos continuarão a subir, mesmo após o fim da guerra. Embora os preços da energia tendam a se estabilizar com o fim do conflito, a dependência contínua de carros a gasolina garante a repetição deste ciclo em futuros choques energéticos.
A "única certeza é a volatilidade", disse Myllyvirta. "Os preços vão cair, e então haverá novos choques. E enquanto a dependência do petróleo continuar, esse ciclo se repetirá, afetando consumidores, a inflação e a política econômica." A estrutura atual da infraestrutura de transporte americana, fortemente atrelada ao petróleo, a torna inerentemente vulnerável a flutuações de mercado e eventos geopolíticos, exigindo uma reavaliação profunda das prioridades energéticas do país.
Perguntas em aberto e o caminho a seguir
O que permanece incerto é a velocidade e a profundidade com que os EUA podem transitar para uma matriz energética menos dependente de combustíveis fósseis. A resistência a mudanças estruturais, aliada a políticas que priorizam a produção de petróleo em detrimento da eficiência e da eletrificação, cria um cenário de incerteza para o consumidor americano. A próxima eleição e as políticas energéticas que dela advierem serão cruciais para determinar se o país continuará nesse ciclo de volatilidade ou se buscará um caminho mais sustentável e resiliente.
Será fundamental observar se haverá um realinhamento das prioridades políticas para incentivar a adoção de VEs, melhorar a infraestrutura de carregamento e promover a eficiência energética em larga escala. A capacidade de adaptação do setor automotivo e a resposta dos consumidores a esses incentivos também serão fatores determinantes na mitigação dos impactos futuros de choques energéticos. A trajetória atual sugere que a volatilidade continuará sendo uma característica marcante do mercado de energia americano, a menos que ocorram mudanças significativas nas políticas e na infraestrutura.
O impacto financeiro da guerra no Irã sobre os consumidores americanos é um sintoma de uma vulnerabilidade mais profunda. A dependência de veículos a gasolina, combinada com políticas que desincentivam a transição para energias mais limpas, cria um ciclo vicioso de custos elevados e instabilidade. A questão não é se haverá outro choque energético, mas quando ele ocorrerá e quão bem preparados os EUA estarão para enfrentá-lo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





