As mesas Bu, criadas pelo artista Han Seungmin — também conhecido como Sonny Han —, propõem uma releitura das proporções e da lógica decorativa do mobiliário tradicional coreano. Exibida na galeria One of One, em Nova York, a série de duas peças utiliza ferragens industriais como elementos centrais de ornamentação, deslocando componentes de hardware de sua função puramente utilitária para um papel estético e ornamental. Segundo a galeria, a instalação é acompanhada por um peixe de madeira entalhado à mão, suspenso sobre as mesas, em uma referência direta ao folclore coreano.

O projeto, que leva o nome de "Bu", explora a dualidade linguística do termo em coreano, que pode significar tanto "riqueza" quanto "divisão" ou "partes". A montagem, organizada de forma empilhada, cria um diálogo entre a técnica artesanal e a produção em massa, forçando o observador a reconsiderar a natureza dos objetos que compõem o ambiente doméstico. O uso do peixe de madeira remete especificamente à lenda de Jaringobi, um homem conhecido por sua avareza extrema, que pendurava um peixe seco sobre a mesa de jantar apenas para contemplá-lo, evitando o consumo real para prolongar a vida útil do alimento.

A estética da ferragem como ornamento

A transição das peças de hardware de sua anonimidade funcional para uma forma de embelezamento ocorre através da repetição e do adensamento. Arruelas são dispostas para mimetizar padrões florais, enquanto dobradiças e suportes metálicos são posicionados como se fossem joias incrustadas na superfície das mesas. Essa recontextualização deliberada revela qualidades estéticas frequentemente ignoradas em componentes industriais padronizados, conferindo-lhes uma delicadeza que contrasta com a natureza bruta do metal.

Essa abordagem desafia a percepção convencional do que constitui um ornamento. Ao elevar parafusos e arruelas ao status de decoração, Han questiona a hierarquia dos materiais no design. O trabalho sugere que o valor de um objeto não reside apenas na raridade da matéria-prima, mas na intenção e na precisão com que componentes ordinários são organizados e apresentados ao olhar do público.

Economia e a materialidade do fazer

O projeto de Han Seungmin também funciona como uma meditação sobre a inseparabilidade entre material e custo. Cada arruela, dobradiça e parafuso utilizado nas mesas possui um preço de mercado conhecido, o que torna o processo de montagem um exercício de contabilidade e restrição. Em um presente marcado pelo consumo acelerado, a obra destaca como a economia do design moderno está intrinsecamente ligada à disponibilidade e ao custo dessas peças modulares.

Ao tornar visível o custo individual de cada componente, o artista convida a uma reflexão sobre a viabilidade econômica do artesanato contemporâneo. O ato de montar a peça não é apenas um processo criativo, mas uma transação financeira materializada. A escolha de expor essa estrutura reforça a tensão entre a produção industrial em larga escala e a singularidade do objeto artístico final.

Tensões entre tradição e consumo

A juxtaposição entre a lenda de Jaringobi e a modernidade das ferragens industriais levanta questões profundas sobre o valor e a contenção no design. Enquanto a lenda de Jaringobi representa o extremo da privação, a obra de Han reflete sobre a saturação de materiais industriais no mercado atual. O contraste entre o folclore, que valoriza a preservação, e a cultura contemporânea, que exige a constante renovação de bens, cria um campo de análise sobre o papel do design na sociedade.

Para colecionadores e entusiastas, a série Bu Tables aponta para uma tendência de valorização da técnica e da reinterpretação cultural em vez da mera inovação formal. A capacidade de transitar entre a herança coreana e a estética do hardware ocidental posiciona o trabalho de Han em um lugar de intersecção, onde a tradição não é algo estático, mas um material que pode ser constantemente reconfigurado e adaptado às novas realidades de produção.

O futuro da ornamentação utilitária

O que permanece em aberto é como essa abordagem de "ornamentação utilitária" pode influenciar o futuro da marcenaria e do design de interiores. Se componentes antes escondidos passam a ser o centro da estética, a própria lógica de fabricação de móveis pode sofrer alterações significativas, focando mais na visibilidade das juntas e fixações do que em sua ocultação tradicional.

Observar a evolução da obra de Han Seungmin será fundamental para entender se essa tendência de expor a "anatomia" do objeto se consolidará como uma linguagem de design duradoura ou se permanecerá como uma exploração pontual sobre os limites da economia do material. A intersecção entre o custo, a função e a beleza continuará a ser um terreno fértil para artistas que buscam redefinir o valor dos objetos em um mundo saturado de mercadorias.

O trabalho de Han Seungmin, ao confrontar a frugalidade folclórica com a abundância de componentes industriais, deixa o espectador diante de um espelho sobre o próprio consumo. A peça não oferece respostas definitivas, mas abre um espaço necessário para questionar o que escolhemos valorizar e o que, talvez, estejamos apenas observando, como o peixe seco de Jaringobi, sem jamais tocar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hypebeast