A correspondência publicada de Hannah Arendt frequentemente a retrata cercada por amigos homens — Martin Heidegger, Karl Jaspers, Heinrich Blücher e Gershom Scholem, entre outros. Apenas Mary McCarthy emerge como uma interlocutora feminina com correspondência publicada em volume próprio. Contudo, essa narrativa omite outras amizades importantes de Arendt com mulheres como Hilde Fränkel, Anne Weil e Charlotte Beradt. A subvalorização das cartas entre mulheres na filosofia e a preferência de Arendt por um "modo mais quieto de conexão", focado em "ressonância emocional, vitalidade corporal e cuidado", explicam em parte essa lacuna. A exceção notável é McCarthy, com quem Arendt manteve um intercâmbio rico em investigação intelectual, mas que ainda assim expõe um lado de Arendt raramente visto: não a filósofa da "mundanidade", mas uma mulher capaz de laços íntimos, até eróticos.

A dualidade da amizade em Arendt

Em seu discurso "Sobre a Humanidade em Tempos Sombrios", Hannah Arendt distinguiu dois tipos de amizade. Uma, focada na "intimismo", onde amigos "abrem seus corações um para o outro, sem serem molestados pelo mundo". Outra, de "relevância política", fundamentada no respeito mútuo e essencial para o "bem-estar da Cidade". Essa última, ligada ao discurso e ao mundo comum, dominou as interpretações de seu pensamento. No entanto, Arendt também reconhecia a dimensão "íntima e desprotegida" da amizade, nutrida em "encontros face a face", onde se "fala sobre nós mesmos". Enquanto a amizade une ao mundo comum, o amor, segundo Arendt em "A Condição Humana", é "apolítico" e "antipolítico", pois apaga as distinções e se encerra no "casulo que isola duas pessoas". Arendt raramente abordava publicamente as amizades íntimas, preferindo reservar o amor para a esfera privada. Ainda assim, em suas cartas privadas com mulheres, essa dimensão íntima ganha vida, revelando uma Arendt diferente daquela de seus escritos públicos.

O início e o desenvolvimento de um laço intelectual

A amizade entre Hannah Arendt e Mary McCarthy, considerada a mais próxima de Arendt nos Estados Unidos, começou de forma tensa. McCarthy fez uma observação sobre o desejo de Hitler de ser amado por suas vítimas, o que indignou Arendt, uma refugiada judia e sobrevivente de campo de concentração. A frieza inicial foi superada por um encontro casual anos depois, quando Arendt propôs: "Vamos acabar com essa bobagem. Pensamos de forma muito parecida." Assim, iniciou-se uma amizade que se assemelha a um "seminário filosófico conduzido na sala de estar". Michelle Dean descreve Arendt e McCarthy como um "paradigma celebrado para a 'amizade feroz' entre mulheres", especialmente em uma época em que "mulheres anseiam por modelos de autoconfiança intelectual". McCarthy devorou "As Origens do Totalitarismo", de Arendt, chamando-o de "uma obra verdadeiramente extraordinária, um avanço no pensamento humano". Arendt, por sua vez, elogiou "Oásis" de McCarthy como um "verdadeiro pequeno obra-prima".

Entre o político e o íntimo: um diálogo constante

Sua correspondência abrange desde a política doméstica, como o impacto do caso Watergate, até a filosofia política, criticando o "principal vício de toda sociedade igualitária: a Inveja". As cartas também exploram a natureza da verdade e do pensamento. Carol Brightman descreveu a troca como tendo "a qualidade de um conte philosophique", uma investigação compartilhada sobre o mundo que habitavam. No entanto, a relação transcendia o debate intelectual. Brightman notou uma "ternura que demonstra uma amizade que beira o romance". McCarthy confidenciou a Arendt: "Estou escrevendo esta nota por razões puramente egoístas: porque meu coração está cheio de emoção e quero falar. Como se estivéssemos no seu apartamento." Arendt, por sua vez, expressou sua preocupação com Heinrich Blücher após uma doença, confessando: "Ainda estou profundamente preocupada e bastante infeliz por ter que ir a Chicago (Mas, por favor, que isso fique entre nós). Estamos juntos há 28 anos e a vida sem ele seria impensável." Essa dualidade de tom, alternando entre o íntimo e o político, era uma marca de sua relação.

Confidências, cumplicidade e a "amizade operária"

A correspondência revela momentos de cumplicidade em aventuras extraconjugais de McCarthy, que por vezes solicitou a ajuda de Arendt para esconder seus encontros. Em um episódio, McCarthy pediu a Arendt para postar uma carta para seu marido, ocultando sua presença em Londres para um encontro com John Davenport. Mais tarde, quando McCarthy se apaixonou por James Raymond West, Arendt foi novamente acionada para ajudar a convencer o marido de McCarthy a conceder o divórcio. As cartas desse período transbordam a "exuberante excitação" de McCarthy, que declarava amar West "mais do que antes". Arendt, com sua habitual sobriedade, respondeu com preocupação: "Tenho medo que você se machuque". McCarthy, de fato, sofreu. Ela relatou a Arendt um incidente em que sua "exuberância" ao contar sobre um caso antigo levou a uma briga com West, terminando com ela "chorando lenta e continuamente". Arendt respondeu com um toque de humor sombrio, sugerindo que a carta de McCarthy "fez o truque" e que a história soava "muito engraçada". As cartas eram pontilhadas por detalhes domésticos e especulações, como a possibilidade de Arendt ter um caso com Harold Rosenberg. Kathleen Jones, citando McCarthy, descreveu a amizade delas como "operária" (workmanly), um termo que capturava a natureza de seu vínculo: íntimo, mas fundamentado em "trabalho compartilhado e companheirismo intelectual", e não em confissões românticas. Arendt ficou "tocada" pela descrição, que resumia a essência de sua conexão.

Com reportagem de Brazil Valley

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