A Harsco Environmental, que presta serviços de gestão ambiental a siderúrgicas, está apostando em uma nova frente de negócios: transformar resíduos da produção de aço em produtos de valor agregado. A iniciativa, que já tem resultados expressivos no Brasil com o desenvolvimento do fertilizante AgroSilício e do agregado Neobrita, foi formalizada como uma nova divisão global da empresa, focada em ecoprodutos e inovação. O objetivo é replicar o modelo de economia circular, onde o que antes era considerado um descarte se torna matéria-prima para outros setores, como o agronegócio e a construção civil. A nova unidade, liderada pelo executivo brasileiro Wender Alves, opera sob a lógica de uma "startup incubada" pela Harsco Environmental, buscando capitalizar sobre a expertise da controladora em lidar com resíduos industriais.
A Conversão da Escória em Valor
O cerne da operação da Harsco Environmental reside em sua capacidade de gerenciar a escória, um subproduto inevitável da fusão e purificação de metais na siderurgia. A empresa instala sua infraestrutura e equipes diretamente nas plantas dos clientes, assumindo a responsabilidade pelo processamento desse material. O processo envolve a extração, transporte, resfriamento, britagem e separação da escória. A porção metálica recuperada é devolvida à siderúrgica como sucata, reduzindo a necessidade de compra de matéria-prima virgem. O material mineral remanescente, rico em silicato de cálcio e magnésio, é a base para os ecoprodutos. Essa dualidade – receber pela gestão do resíduo e vender os produtos derivados – representa um ganho financeiro para a Harsco e um avanço na sustentabilidade para a indústria do aço.
AgroSilício e Neobrita: Produtos de Impacto
Os dois principais produtos dessa nova divisão já demonstram seu potencial. O AgroSilício é um fertilizante e corretivo de solo que compete com o calcário, sendo atualmente produzido em cerca de 300 mil toneladas anuais, com aplicações em pastagens, grãos e café. Sua pegada de carbono, auditada e reconhecida pela ferramenta RenovaCalc do programa RenovaBio, tem impulsionado sua adoção por produtores de culturas voltadas para biocombustíveis. Paralelamente, a Neobrita é um agregado que substitui a brita na base e sub-base de vias e pátios logísticos, com uma produção anual de 1,8 milhão de toneladas. A localização estratégica da Harsco dentro das usinas, muitas delas em Minas Gerais, como Usiminas, Aperam, Gerdau e Vallourec, garante contratos de longo prazo e um fluxo contínuo de matéria-prima, fortalecendo a posição da empresa no mercado.
Reorganização e Diversificação Estratégica
A criação da divisão de ecoprodutos ocorre em um momento de reestruturação corporativa. A Enviri, antiga Harsco Corporation, vendeu sua divisão de gestão de resíduos nos EUA para a Veolia por US$ 3 bilhões e separou seus negócios remanescentes, Harsco Environmental e Harsco Rail, em uma nova empresa independente. Essa transação evidenciou o valor de mercado da gestão de resíduos como um ativo principal. A Harsco Environmental, agora central para a nova estrutura, responde por mais de 80% da receita projetada para 2026. A diversificação de receitas é crucial, especialmente considerando os desafios atuais na indústria siderúrgica global. A aposta em ecoprodutos visa mitigar a exposição a um único setor, fortalecendo a resiliência do negócio.
Exportação de Tecnologia, Não de Material
O modelo de sucesso no Brasil serve de ponto de partida para a expansão global. A Harsco investiu cerca de R$ 200 milhões em suas operações brasileiras nos últimos três anos. A expansão da fábrica de fertilizantes em Timóteo (MG) prevê um aumento de capacidade e uma nova unidade. Contudo, o modelo de exportação foca na tecnologia e no know-how, e não no transporte de materiais pesados e de baixo valor por tonelada. O alcance geográfico de produtos como a Neobrita é limitado pelo frete, similar a pedreiras que vendem em um raio de 50 km. O AgroSilício atinge 400-500 km. Portanto, a estratégia é levar a capacidade de transformação da Harsco para locais com fontes de resíduos similares, como Turquia, Índia, China e Estados Unidos. Essa abordagem permite a adaptação local e a troca de tecnologias, como a captura de CO2 com escória no Canadá ou o uso de escória quente para produzir abrasivos (SlagMod).
Troca de Tecnologias e Novos Horizontes
A estratégia de exportação inclui também a importação de tecnologias. O SteelPhalt, um asfalto com 95% de agregados siderúrgicos reciclados, desenvolvido na Inglaterra, está previsto para ganhar sua primeira fábrica na América Latina em Minas Gerais, com um investimento de R$ 100 milhões. A Harsco já realizou testes com resíduos brasileiros na Inglaterra e está em processo de ajustes regulatórios com o governo mineiro. Essa troca bidirecional de inovações reforça o compromisso da empresa em impulsionar a economia circular globalmente, transformando desafios ambientais em oportunidades de negócio sustentáveis e replicáveis.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Capital Reset





