Imagine um ambiente onde a excelência se tornou a norma estatística, a ponto de obscurecer qualquer distinção real entre o desempenho comum e o brilhantismo. Em Harvard, o conceito de nota A, historicamente reservado ao trabalho de "extraordinária distinção", diluiu-se em uma inflação silenciosa que agora desafia a própria estrutura pedagógica da instituição. Durante o ano acadêmico de 2024-2025, impressionantes 66% dos estudantes alcançaram a nota máxima, um salto expressivo frente aos menos de 50% registrados em 2006. O corpo docente, diante dessa saturação, discute uma proposta drástica: limitar a concessão de A a apenas 20% da turma, acrescidos de quatro alunos, como um esforço para reverter o que consideram uma desvalorização crônica do mérito acadêmico.

A erosão do mérito acadêmico

A inflação de notas não é um fenômeno novo, nem exclusivo de Cambridge, mas em Harvard ela atingiu um patamar que o professor de estudos latino-americanos Steven Levitsky descreve como "meio maluco". A origem dessa tendência remonta à era da Guerra do Vietnã, quando professores inflavam notas para proteger estudantes do recrutamento militar, mas as causas modernas são mais complexas. O Departamento de Educação dos EUA aponta que, entre 1990 e 2020, o GPA nas faculdades de quatro anos subiu mais de 16%, impulsionado pela pressão dos estudantes como "consumidores" e pelo sistema de avaliação docente. Quando a nota deixa de ser um indicador de desempenho para se tornar um requisito de satisfação do cliente, o valor intrínseco do diploma começa a ser questionado pelo mercado.

O mecanismo da abundância

O fenômeno funciona como uma moeda desvalorizada pela emissão excessiva. À medida que o A se torna onipresente, a capacidade dos empregadores e das pós-graduações de identificar talentos diferenciados diminui drasticamente. Relatórios da reitoria indicam que o crescimento foi gradual no início da década de 2010, acelerando-se no final do período e sofrendo um pico durante o ensino remoto. O esforço atual para conter essa maré, contudo, encontra resistência feroz. Estudantes, pressionados por um mercado de trabalho incerto e mensalidades que superam a marca de US$ 80 mil, veem a proposta como uma ameaça direta ao seu futuro, com cerca de 85% da classe estudantil manifestando oposição ao limite sugerido.

Tensões entre pedagogia e mercado

As implicações dessa mudança extrapolam os muros da universidade e tocam na função social da educação superior de elite. Se Harvard, o bastião da excelência acadêmica, não consegue distinguir quem realmente se destacou, o sistema de meritocracia que sustenta essas instituições perde sua fundamentação. Reguladores e acadêmicos observam o caso com atenção, lembrando que tentativas similares em Princeton e Wellesley falharam diante da resistência institucional e cultural. A tensão entre manter um padrão acadêmico rigoroso e atender às expectativas de uma geração que vê a nota como um ativo financeiro coloca a universidade em uma encruzilhada delicada.

O futuro da avaliação

O que permanece incerto é se uma medida administrativa é capaz de reverter décadas de mudanças comportamentais enraizadas. A votação do corpo docente, prevista para meados de maio, dirá se a instituição está disposta a enfrentar o desgaste político com seu corpo discente em nome da integridade acadêmica. O caso levanta uma questão persistente: em uma cultura que exige sucesso constante, ainda há espaço para a distinção que não seja medida pela média, mas pela rara exceção?

O desfecho dessa disputa definirá não apenas as próximas notas em Harvard, mas o próprio significado do sucesso acadêmico em um mundo onde a excelência se tornou, ironicamente, comum demais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company