A sonda japonesa Hayabusa2, que já havia ganhado notoriedade por sua missão de coleta de amostras do asteroide Ryugu, adicionou mais um feito ao seu currículo. Em rota para seu próximo destino, o asteroide 1998 KY26, a nave da agência espacial japonesa (JAXA) realizou uma manobra não programada: um sobrevoo em alta velocidade de um segundo asteroide, chamado Torifune, para testar seu sistema de mira a laser.
O experimento, detalhado em uma reportagem do site espanhol El Confidencial, foi um sucesso e representa mais do que um simples teste técnico. Ao validar a capacidade de rastrear um objeto com pulsos de laser (tecnologia conhecida como LiDAR) a uma velocidade relativa de 5 km/s, a JAXA demonstrou uma capacidade que pode ser fundamental para o futuro da defesa planetária — o sistema que vigia e planeja respostas a corpos celestes em rota de colisão com a Terra.
Uma nova ferramenta de precisão
O princípio do LiDAR é medir a distância de um objeto calculando o tempo que um pulso de luz leva para atingir a superfície e retornar. Durante o sobrevoo, a Hayabusa2 conseguiu realizar essa medição a distâncias de 20 km e 15 km. A JAXA afirma que esta é a primeira vez que tal medição é feita durante um encontro de alta velocidade com um asteroide.
A aplicação para a defesa planetária é direta. Ao combinar múltiplos pontos de dados de distância com as informações de telemetria da própria nave, os cientistas podem determinar a posição e a velocidade de um asteroide com uma precisão muito maior. Isso, por sua vez, aprimora drasticamente a exatidão das previsões orbitais, o pilar de qualquer estratégia para monitorar objetos potencialmente perigosos.
O ensaio para um alvo peculiar
O teste com o asteroide Torifune também serviu como um ensaio geral para o verdadeiro desafio da Hayabusa2: o encontro com 1998 KY26. Observações recentes indicam que este asteroide é muito mais estranho do que se imaginava, com um diâmetro de apenas 11 metros — cerca de três a quatro vezes menor do que as estimativas anteriores.
Para colocar em perspectiva, a própria sonda Hayabusa2 mede 6 metros de comprimento. Como apontou o cientista planetário Toni Santana-Ros, a nave tem mais da metade do tamanho do objeto que irá visitar. Navegar e estudar um alvo tão pequeno, que também gira em alta velocidade, é uma manobra de complexidade extrema. O sistema LiDAR, recém-validado, será uma ferramenta indispensável para que a sonda possa se aproximar e analisar este mundo em miniatura.
A manobra bem-sucedida em Torifune, portanto, tem um duplo valor. De um lado, valida uma técnica com potencial para aprimorar a vigilância do nosso próprio planeta. De outro, prepara a Hayabusa2 para um dos encontros mais desafiadores da história da exploração espacial, cujo sucesso dependerá da precisão de cada instrumento a bordo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · El Confidencial — Tech





