O mercado financeiro global atravessa uma reconfiguração profunda em suas teses de investimento para a era da inteligência artificial. Segundo levantamento do Goldman Sachs publicado em 22 de maio, hedge funds e fundos mútuos estão operando uma rotação agressiva, abandonando posições em empresas de software para concentrar capital no setor de semicondutores. O movimento reflete uma mudança na percepção de risco e oportunidade diante da ascensão dos agentes de IA.

Os números traçados pelo banco corroboram a tese de que o valor econômico está migrando da camada de aplicação para a infraestrutura. Enquanto o grupo de Software & Serviços acumula queda de 14% no acumulado de 2026, o setor de semicondutores registra valorização de 38% no mesmo período. A análise baseia-se em posições de US$ 9 trilhões e aponta para um ceticismo crescente sobre a sustentabilidade dos modelos de receita baseados em assinaturas tradicionais.

O fim da era do SaaS tradicional

O fenômeno, apelidado pelo mercado de "SaaSPocalypse", não é um movimento de pânico, mas uma realocação estratégica. Hedge funds reduziram a exposição a software ao patamar mais baixo desde 2019, enquanto fundos mútuos atingiram o maior nível de subponderação no setor desde 2012. Até mesmo a Microsoft, frequentemente vista como imune a ciclos de baixa devido à sua integração com a OpenAI, sofreu reduções líquidas nas carteiras desses grandes investidores no último trimestre.

Essa desconfiança não é infundada. O consenso de analistas projeta ganhos por ação (EPS) no setor de tecnologia que superam as estimativas mais conservadoras do Goldman Sachs, sugerindo que o mercado pode estar superestimando a capacidade de recuperação das margens de software. A transição para agentes autônomos de IA coloca em xeque a longevidade de ferramentas que dependem de interfaces manuais e modelos de cobrança por assento, forçando uma reavaliação dos múltiplos de receita que sustentaram o setor na última década.

A infraestrutura como porto seguro

Por que o capital está migrando para os fabricantes de chips? A tese predominante é que, independentemente de qual software vença a corrida da IA, a demanda por poder computacional permanece inelástica. Hedge funds aumentaram posições em empresas como ASML, Applied Materials e Lam Research, apostando que o superciclo de semicondutores é a única aposta garantida em um cenário de incerteza sobre a monetização de aplicações de software.

Contudo, essa estratégia carrega seus próprios riscos. Pesquisas internas do próprio Goldman Sachs indicam que parte do boom na infraestrutura de IA é movido por medo de ficar de fora (FOMO), com hyperscalers priorizando a corrida armamentista tecnológica em detrimento da rentabilidade imediata para os acionistas. Se a demanda por infraestrutura for excessiva ou especulativa, a rotação que hoje beneficia os fabricantes de chips pode enfrentar um ajuste severo no futuro.

Tensões entre fornecedores e clientes

As implicações para o ecossistema de software são imediatas. CIOs e CTOs globais estão endurecendo as negociações, exigindo preços baseados em resultados e ameaçando substituir ferramentas que não demonstrem capacidades nativas de IA. A distinção clara está entre empresas que possuem dados proprietários e profundidade de domínio e aquelas que funcionam apenas como camadas superficiais de interface, as quais correm risco iminente de obsolescência.

Executivos de empresas como a ServiceNow já internalizaram essa mudança, declarando publicamente que a era do "software sidecar" acabou. O foco agora recai sobre camadas de governança e workflows complexos que garantem a confiabilidade de agentes autônomos. A sobrevivência das empresas de software dependerá de sua capacidade de transitar de modelos de assinatura por assento para modelos de valor, mantendo vantagens competitivas baseadas em dados que não podem ser replicadas por wrappers de IA.

O horizonte de incertezas

O que permanece em aberto é a velocidade dessa transição. A história sugere que mudanças de plataforma frequentemente enriquecem os incumbentes que conseguem se adaptar, mas o custo de switching e os contratos de longo prazo podem apenas atrasar, e não impedir, a erosão do valor. Observar se os incumbentes conseguirão reter seus clientes enquanto reformulam seus produtos será o teste definitivo para o setor.

Além disso, a possível desconexão entre a produtividade gerada pela IA e a captura de valor pelos desenvolvedores de software continua sendo um ponto cego. Se a IA realmente aumentar a produtividade, alguém capturará esse excedente econômico; resta saber se serão os fornecedores de infraestrutura, as empresas de software ou os próprios clientes finais. O mercado parece ter feito sua escolha, mas a história da tecnologia raramente segue um caminho linear.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune