A gestora britânica Hg Capital Trust, um dos braços mais influentes do private equity europeu focado em software, iniciou um movimento de reavaliação de seus ativos que reflete o novo clima de cautela no mercado global de tecnologia. Segundo reportagem do Financial Times, a firma reduziu as avaliações de 14 de suas 20 maiores empresas do portfólio, uma decisão que ilustra a dificuldade de sustentar múltiplos elevados em um cenário onde o custo de capital permanece resiliente e a liquidez para saídas via IPO ou venda estratégica tornou-se mais escassa.

Este ajuste não é apenas contábil; é um reconhecimento de que o otimismo que impulsionou as avaliações de empresas de software nos últimos anos encontrou uma barreira estrutural. Ao revisar seus números, a Hg Capital Trust envia um sinal ao mercado de que as métricas de desempenho das companhias de capital fechado precisam, inevitavelmente, convergir para a realidade observada nas empresas de capital aberto. Para os investidores, o movimento levanta questões sobre o quanto de valor ainda reside nos balanços de outros fundos que mantêm avaliações estáticas.

O fim da era dos múltiplos expansionistas

Durante a última década, o setor de software viveu um período de bonança alimentado por taxas de juros próximas a zero e uma demanda insaciável por digitalização corporativa. Fundos de private equity, como a Hg, capitalizaram essa tendência ao adquirir empresas de software de nicho, otimizar suas operações e vender essas participações por múltiplos de receita significativamente maiores. O modelo funcionava em um ciclo virtuoso onde a expansão dos múltiplos de mercado mascarava, muitas vezes, a necessidade de crescimento orgânico agressivo.

Contudo, a mudança no cenário macroeconômico global, caracterizada por taxas de juros que se mantêm em patamares mais altos do que o esperado, alterou fundamentalmente o cálculo de risco. Quando o dinheiro não é mais barato, investidores passam a exigir retornos baseados em fluxos de caixa reais e previsibilidade de lucros, em detrimento do crescimento a qualquer custo. A decisão da Hg de marcar a mercado parte de suas posições sugere que a estratégia de "esperar pela recuperação" já não é mais viável, forçando o setor a encarar um processo de precificação mais rigoroso.

Mecanismos de ajuste e a pressão sobre o capital privado

O processo de marcação a mercado no private equity é intrinsecamente mais lento do que nas bolsas de valores. Enquanto ações de empresas de tecnologia sofrem volatilidade diária, fundos de private equity utilizam modelos de avaliação baseados em comparáveis públicos e métricas operacionais próprias. Quando um fundo como a Hg decide cortar valores, ele admite que a defasagem entre o valor percebido nos livros e o valor que o mercado está disposto a pagar tornou-se grande demais para ser ignorada.

Esse ajuste funciona como uma trava de segurança. Ao reduzir as avaliações agora, o fundo evita o erro de se basear em métricas infladas para futuras captações ou decisões de alocação de capital. Além disso, essa medida pressiona as equipes de gestão das empresas investidas a entregar resultados operacionais mais sólidos. Se o múltiplo de mercado contraiu, a única forma de manter ou aumentar o valor da empresa é através da expansão da margem EBITDA e da eficiência operacional, forçando uma disciplina que nem sempre foi prioridade durante o auge do ciclo de liquidez.

Implicações para o ecossistema e o mercado brasileiro

As implicações desse movimento transcendem as fronteiras europeias. O mercado de venture capital e private equity no Brasil, que viu um fluxo massivo de capital estrangeiro entre 2020 e 2022, também enfrenta desafios semelhantes de reavaliação. Muitos ativos brasileiros de tecnologia ainda operam com métricas de valuation que refletem o otimismo de anos anteriores, e a tendência é que o mercado local siga o exemplo global de realizar "down rounds" ou ajustes nas carteiras para alinhar expectativas com a realidade atual de juros altos.

Para os reguladores e investidores institucionais, a transparência na marcação de ativos torna-se um pilar fundamental para a saúde do ecossistema. A incerteza sobre o valor real das participações pode travar o mercado secundário, inibindo fusões e aquisições que seriam naturais em um ciclo de consolidação. À medida que grandes gestoras começam a reconhecer essas correções, abre-se espaço para que o mercado encontre um novo ponto de equilíbrio, onde o foco retorne à viabilidade do negócio e não apenas à valorização especulativa.

O que esperar da próxima rodada de balanços

A grande interrogação que permanece é se este movimento da Hg Capital Trust será um caso isolado ou se desencadeará um efeito dominó entre outras gestoras de tecnologia. A resistência de muitos fundos em reavaliar seus ativos tem sido uma estratégia de defesa para evitar o pânico entre seus cotistas, mas a persistência do cenário de juros altos torna essa postura cada vez menos sustentável. O mercado observará de perto se as próximas divulgações de resultados trarão cortes adicionais ou se as empresas do portfólio conseguiram entregar crescimento suficiente para justificar a manutenção dos valores atuais.

Além disso, o impacto dessa reavaliação no apetite por novas rodadas de investimento é uma variável crucial. Se os fundos de private equity estiverem menos propensos a pagar prêmios por novas aquisições, o ecossistema de tecnologia como um todo pode experimentar uma desaceleração no ritmo de consolidação, alterando o cronograma de saídas para fundadores e investidores de estágio inicial. A disciplina imposta pelo mercado financeiro global agora atua como um filtro, separando empresas com fundamentos sólidos daquelas que dependiam exclusivamente da expansão de múltiplos.

O ajuste de valor da Hg Capital Trust é um lembrete de que o private equity não está imune às leis da gravidade econômica. Enquanto o setor tenta se adaptar a uma nova realidade de custos e retornos, a capacidade de gerar valor real através da eficiência operacional será o diferencial que definirá quais gestoras sairão fortalecidas e quais sofrerão com o legado de avaliações que não se sustentam no longo prazo.

Com reportagem de Financial Times

Source · Financial Times — Technology