O setor elétrico brasileiro testemunha um notável ressurgimento das usinas hidrelétricas. Após um hiato de mais de uma década sem a licitação de grandes projetos, o país vê um retorno significativo de investimentos nessa fonte de energia. As usinas hídricas, antes vistas com ceticismo devido a desafios de licenciamento e à ascensão das renováveis eólicas e solares, recuperaram seu protagonismo como pilares fundamentais para a segurança energética nacional e a prevenção de blecautes.
Essa retomada se manifesta de forma clara nos leilões de capacidade do setor elétrico, que têm contratado volumes expressivos de energia hídrica para os próximos anos. Além disso, as hidrelétricas já em operação têm sido acionadas com uma frequência maior do que o habitual. Elas são chamadas a suprir a demanda crescente, especialmente nos horários de pico do final da tarde e início da noite, quando o consumo se eleva e a geração solar diminui. Esse novo padrão de operação explora a flexibilidade intrínseca das usinas hídricas, permitindo-lhes aumentar a produção em momentos cruciais para o sistema, o que também eleva os preços e, consequentemente, o valor dos ativos hídricos no mercado. Essa dinâmica, por sua vez, impulsiona a necessidade de investimentos em manutenção e modernização, beneficiando diretamente os fabricantes de equipamentos do setor.
Um Ciclo de Retomada e Oportunidade
Cláudio Trejger, CEO de Hydro Power da GE Vernova, descreve esse cenário como uma "parábola": um setor que atingiu seu ápice, experimentou uma queda acentuada e agora se encontra em uma curva ascendente. A indústria de equipamentos, em particular, sentiu os efeitos da desaceleração após a conclusão de grandes projetos estruturantes como Jirau, Santo Antônio e Belo Monte. No entanto, a atual onda de retomada traz consigo oportunidades significativas. A GE Vernova, com sua fábrica em Taubaté, já está envolvida em projetos de retrofits em usinas como São Simão, Tucuruí e São Domingos, e se prepara para futuras demandas em leilões de capacidade. A modernização tecnológica da hidrelétrica binacional de Itaipu, um projeto de 14 anos, também demonstra o fôlego renovado do setor.
As privatizações recentes de companhias como Cesp, Eletrobras e Copel são apontadas como um fator catalisador para esses investimentos. Ao acelerar a tomada de decisões e a alocação de capital, essas transações facilitam a realização de reformas em usinas com mais de 40 anos de operação, que demandam atenção e atualização tecnológica. A AXIA, por exemplo, tem um plano robusto de modernização para seus ativos.
Expansão e Inovação em Usinas Hídricas
O leilão de capacidade realizado em março deste ano marcou um ponto de virada, com a contratação de 2,5 gigawatts em expansões de usinas existentes, incluindo projetos da AXIA Energia, Copel e da chinesa SPIC. Este foi o maior volume de contratação de novos projetos hídricos desde 2013, encerrando um longo período de estagnação. Os empreendimentos vencedores exploram o potencial de "poços vazios" em projetos hidrelétricos antigos, permitindo expansões com menor impacto ambiental. Estudos indicam um potencial de até 7,5 GW apenas com a adição de novas máquinas em usinas existentes, além de outros 11 GW provenientes de repotenciação e modernização.
Uma inovação promissora são as usinas reversíveis (ou pumped storage), comuns na Europa e na China, que operam com dois reservatórios e funcionam como baterias gigantes para o sistema elétrico. A Copel, por exemplo, planeja apresentar 4 GW em projetos desse tipo ainda neste ano, e outros grupos também exploram sua viabilidade. Trejger da GE Vernova vê as usinas reversíveis como uma "vedete no médio prazo", com um movimento expressivo de empresas estudando e sondando fornecedores para desenvolver essas tecnologias.
Desafios e a Formação de Profissionais
Apesar do otimismo, o crescimento acelerado do setor levanta um alerta sobre a capacidade da indústria de suprir a demanda. Não se trata apenas de espaço nas fábricas, mas também da escassez de engenheiros especializados em hidrelétricas. Muitos profissionais migraram para outros segmentos durante os anos de baixa atividade no setor. A pergunta que se coloca é se a profissão de engenheiro de hidrelétricas ainda é atraente para os recém-formados. O executivo da GE Vernova nota uma mudança de percepção, com um renovado interesse e apelo pela área, indicando que o cenário de contratação e formação profissional pode estar se reequilibrando.
O futuro das hidrelétricas no Brasil parece promissor, impulsionado pela necessidade de segurança energética e pela capacidade de inovação. A exploração de potencial em usinas existentes e o desenvolvimento de tecnologias como as usinas reversíveis apontam para um papel renovado e crucial dessa fonte na matriz energética nacional. Resta observar como a indústria lidará com a demanda crescente e a formação de novos talentos para sustentar esse ciclo de expansão.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





