Antes que o termo "multitarefa" se tornasse um clichê para descrever indivíduos com múltiplos talentos, Hiroshi Fujiwara já personificava essa descrição. Há décadas, o ícone japonês transita entre a criação de guitarras acústicas personalizadas com Eric Clapton, o desenvolvimento de suéteres com a Loro Piana e a orquestração de uma revolução no streetwear de Tóquio. Essa última façanha lhe rendeu o título de "padrinho do streetwear", um reconhecimento que ele, com sua habitual modéstia, prefere relativizar, lembrando que o movimento já existia muito antes de sua ponte cultural.
Independentemente de sua concordância com o título, a influência de Fujiwara na importação da cultura hip-hop e skate para Tóquio nos anos 80 foi sísmica. Sua atuação nos anos 90, mentorando figuras como Jun Takahashi (fundador da Undercover) e NIGO (o gênio por trás da BAPE e Human Made), enquanto gerenciava sua própria marca influente, GOODENOUGH, solidificou seu status. O motor por trás de tudo isso não é uma energia inesgotável, mas sim um gosto inato, cultivado desde a infância. "Eu sempre quis ser diferente de todo mundo. Esse senso de individualidade era incrivelmente forte", confessou Fujiwara em uma entrevista traduzida à revista Men's Non-no em 1996. Essa busca por distinção se manifestava desde o jardim de infância, quando ele usava shorts mesmo no inverno por achá-los "muito mais legais". Mais tarde, ele rejeitava as roupas que seus pais compravam, preferindo a estética punk que descobriu na adolescência através de Vivienne Westwood e Malcolm McLaren.
O Instinto como Guia
O instinto é a força motriz por trás de tudo o que Fujiwara toca, desde as roupas que veste até os projetos que lança através de sua consultoria criativa, Fragment Design. Esses projetos estão intrinsecamente ligados à sua forma de se vestir. Quando desejava uma bolsa de trabalho robusta, ele não reinventou a roda; buscou a excelência em parceiros como a Porter Yoshida. "Meu raciocínio foi que a Porter é uma ótima empresa que faz ótimas bolsas, então, se eu quisesse fazer uma bolsa, deveria fazê-la com os melhores da indústria", explicou em uma entrevista de 2019. Essa filosofia se estende a outras áreas: "O mesmo vale para tênis. Não quero fazer meus próprios tênis porque a Nike já os faz, então fiz com a Nike. Ou a Moncler, que tem uma ótima coleção de inverno, ou a Levi's, que faz jeans."
Fujiwara sempre vestiu a maneira como trabalha. Atualmente, isso frequentemente significa usar uma amálgama de suas próprias criações apoiadas pela Fragment: sapatos náuticos em colaboração com a Timberland, óculos de sol da Oakley e fones de ouvido da Bang & Olufsen. Era o mesmo nos anos 80: quando ajudou a introduzir a cultura skate na consciência japonesa, usava Stüssy e outras marcas ocidentais. Durante os anos 90, quando sua marca GOODENOUGH moldava o estilo de rua, ele vestia o que vendia na loja. A coerência entre sua vida e sua obra é notável.
A Essência da Colaboração
Para alguém com um portfólio de colaborações que preencheriam múltiplos livros de mesa de centro, a rotação diária de Fujiwara permanece notavelmente contida. Peças vintage da Levi's e tênis Converse são favoritos, assim como relógios de design mais modesto. "De certa forma, não exagerar é a essência do 'estilo Hiroshi Fujiwara'", disse ele em 2023. Essa abordagem é refrescantemente pé no chão; Fujiwara não usa fachada. Sua curiosidade é voltada para o exterior. "Eu sei imediatamente quando gosto de algo ou me sinto atraído por ele", afirmou em uma entrevista recente. "Quando desenho roupas ou produtos, ou faço música, estou sempre fazendo uma espécie de amostragem. Coisas que vi antes, coisas que gosto ou coisas que permaneceram na minha memória."
Essa curadoria cuidadosa, essa habilidade de destilar o essencial e apresentar o que é genuinamente atraente, é o que o diferencia. Não se trata de acumular logotipos ou de criar algo radicalmente novo, mas de refinar e apresentar o que já é bom de uma maneira que ressoa com sua própria identidade. É uma forma de autenticidade que se tornou rara em um mundo cada vez mais saturado de novidades efêmeras. Sua influência reside não apenas em quem ele é, mas em como ele escolhe se apresentar ao mundo, uma escolha que se reflete em cada peça que ele usa e em cada projeto que empreende.
O Legado em Páginas e Ruas
Na sexta-feira, sua abordagem testada pelo tempo em tudo o que faz ganhará um reconhecimento especial, ocupando 184 páginas da edição 30 da revista A Magazine Curated By. Aqui, Fujiwara abre suas fontes de inspiração, desde um inventário fotográfico de seus pertences até os locais de Tóquio que mais lhe importam. O foco pode parecer menos sobre roupas e mais sobre como ele navega pelo mundo, mas essa é precisamente a questão: para Fujiwara, o uniforme é tudo. Ele é a manifestação tangível de sua identidade, um currículo visual que conta a história de uma vida dedicada à estética e à inovação.
A publicação serve como um convite para mergulhar no universo de um homem que entende que estilo não é apenas sobre o que se veste, mas sobre como se vive. É uma reflexão sobre a importância da curadoria pessoal em um mundo de excessos, e como um senso estético apurado pode se tornar a base de uma carreira influente e respeitada. A obra de Fujiwara, assim como seu guarda-roupa, é um testemunho do poder da consistência e da autenticidade.
Perguntas para o Futuro
A longevidade de Fujiwara na indústria da moda levanta questões sobre a sustentabilidade de carreiras baseadas em um senso estético refinado versus estratégias de marketing mais agressivas. Em um cenário onde a novidade é frequentemente valorizada acima da substância, como sua abordagem de "não exagerar" continuará a influenciar designers emergentes? Será que a ênfase em colaborações com marcas estabelecidas, em vez de criar do zero, é um modelo replicável ou uma característica única de seu gênio curatorial? A forma como ele seleciona e apresenta seus projetos sugere uma filosofia de "menos é mais" que, em contraste com a velocidade vertiginosa das tendências atuais, parece quase anacrônica, mas ainda assim, profundamente relevante.
À medida que novas gerações de criadores buscam seu lugar no saturado mercado da moda, a trajetória de Fujiwara oferece um estudo de caso sobre como a integridade pessoal e um olhar aguçado podem construir um legado duradouro. A questão que permanece é se essa ênfase na autenticidade e na curadoria cuidadosa pode, de fato, resistir à pressão constante por novidades e volume, ou se o "estilo Hiroshi Fujiwara" é uma anomalia brilhante em um ecossistema cada vez mais homogêneo e acelerado. A publicação da A Magazine Curated By oferece um vislumbre de suas inspirações, mas o futuro de sua influência, e a adoção de sua filosofia em larga escala, ainda estão em aberto.
O legado de Hiroshi Fujiwara transcende a mera vestimenta; é uma lição sobre como um estilo pessoal autêntico pode se tornar a fundação de uma carreira influente e uma força definidora na cultura. Sua capacidade de discernir e colaborar com o que há de melhor, mantendo sempre sua identidade única, é um farol em um mundo de moda em constante mudança. A forma como ele continua a evoluir, mantendo-se fiel a si mesmo, é talvez a sua maior colaboração.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Highsnobiety




