Um grupo de proeminentes artistas, escritores e intelectuais judeus, incluindo os cineastas Joel Coen e Todd Haynes, a atriz e roteirista Ilana Glazer e o dramaturgo Tony Kushner, publicou uma carta aberta em defesa do ator Mark Ruffalo, intitulada “Enough!” (“Basta!”). O documento, divulgado pelo portal literário Lit Hub, é uma resposta direta a uma campanha que acusou Ruffalo de antissemitismo.

A controvérsia começou quando o ator, um conhecido defensor dos direitos palestinos, criticou a proposta de fusão de US$ 111 bilhões entre a Paramount Skydance e a Warner Bros. Discovery. Em suas redes sociais, Ruffalo destacou as conexões entre o CEO da Skydance, David Ellison, e seu pai, Larry Ellison, fundador da Oracle. A gigante de tecnologia é uma fornecedora histórica de software para as Forças de Defesa de Israel (IDF), e Larry Ellison é o maior doador da história da organização Friends of the Israel Defense Forces. A carta não apenas defende o ator, mas articula uma tese mais ampla: a crítica a estruturas de poder que conectam Hollywood, o Vale do Silício e a máquina de guerra israelense não é antissemitismo, mas um imperativo ético.

A Linha Vermelha do Discurso

O argumento central dos signatários é que a acusação de antissemitismo tem sido usada como uma “arma falsa e perigosa” para silenciar opositores. Para eles, apontar as ligações entre a consolidação da mídia, a tecnologia de vigilância e o conflito em Gaza é o oposto de preconceito. A carta detalha como a Oracle, onde a ex-CEO Safra Catz também integra o conselho da Paramount, tem um papel explícito no suporte tecnológico às operações militares israelenses. O texto enquadra a fusão da Paramount não como um mero negócio, mas como parte de um “projeto maior de dominação impulsionada pela tecnologia”.

A leitura aqui é que o grupo busca ressignificar os limites do debate público. Ao invés de aceitar a premissa de que a crítica a indivíduos e empresas poderosas que apoiam Israel é inerentemente antissemita, eles a posicionam como um dever cívico. Para reforçar a legitimidade de sua posição dentro da própria comunidade, a carta cita uma pesquisa recente do Washington Post, segundo a qual 61% dos judeus americanos acreditam que Israel está cometendo crimes de guerra em Gaza, e 39% concordam que as ações configuram genocídio. A pergunta implícita é retórica e potente: todos esses judeus também seriam antissemitas?

O Cisma em Hollywood e Além

Mais do que uma defesa individual, a carta expõe um cisma crescente dentro da comunidade judaica americana e, por extensão, em Hollywood. A lista de signatários é notável por sua diversidade ideológica e profissional, unindo figuras do establishment cultural, como Joel Coen e a atriz Debra Winger, a ativistas e intelectuais conhecidos por suas posições críticas a Israel, como Naomi Klein e Peter Beinart. Essa coalizão sinaliza que a crítica às políticas do governo israelense está deixando de ser uma posição marginal para ganhar tração no coração da indústria criativa.

O documento também alarga o escopo da crítica para além do conflito no Oriente Médio, conectando-o a uma ansiedade mais ampla sobre o poder dos bilionários da tecnologia. Ao mencionar Larry Ellison ao lado de Elon Musk e Peter Thiel, os autores situam a fusão da Paramount em um contexto de “jogadas de poder oligárquicas” que, segundo eles, ameaçam a democracia. O movimento é calculado: ele desafia o antigo tabu de que críticas contundentes a Israel representam um risco para a carreira em Hollywood, usando o peso coletivo de nomes respeitados para criar um escudo protetor e, ao mesmo tempo, avançar uma agenda política clara.

A carta termina com um tom desafiador, declarando que “o tempo de acusações espúrias de antissemitismo para defender a guerra, a oligarquia e, agora, a dominação da IA acabou”. O texto se posiciona como um ponto de virada, uma tentativa de invalidar o que chama de um “manual cansado”. Se a manobra será bem-sucedida em criar mais espaço para o dissenso ou se apenas aprofundará a polarização em uma indústria já fraturada, é uma questão que permanece em aberto. O que está claro é que a batalha narrativa sobre o que pode ou não ser dito está sendo travada abertamente, com os próprios protagonistas da cultura na linha de frente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub