No coração da tradicional Rioja Alavesa, uma pequena vila chamada Elciego guarda um segredo cintilante. Não é apenas o aroma de vinhos quase centenários que emana de suas adegas históricas, mas também o brilho metálico de um edifício que desafia o tempo e a gravidade. Há vinte anos, em 10 de outubro de 2006, a paisagem vinícola espanhola foi irrevogavelmente alterada com a inauguração da Ciudad del Vino Marqués de Riscal, coroada por um hotel de cubiertas onduladas em tons de titânio, rosa, ouro e prata. A mente por trás dessa maravilha arquitetônica era Frank Gehry, o renomado arquiteto canadense, que aceitou o desafio após um gesto singular: a abertura de uma garrafa de 1929, ano de seu próprio nascimento, oferecida pelos anfitriões da bodega.

Essa garrafa não foi apenas um vinho; foi um portal. Para um arquiteto já consagrado, a proposta de integrar um hotel moderno a uma bodega fundada no século XIX poderia parecer um desvio. No entanto, a longevidade e a história contidas naquele líquido dourado, aliadas à paixão de seus guardiões, criaram uma conexão imediata. Gehry, que descreveria sua criação como "uma criatura maravilhosa, com o pelo voando em todas direções, que se lança sobre os vinhedos", selou a cumplicidade com a bodega não apenas em sua obra, mas também na criação do vinho Frank Gehry Selection. Duas décadas depois, essa estrutura audaciosa não só se mantém como um ícone da arquitetura vanguardista internacional, mas celebra seu aniversário transformando radicalmente a forma como a cultura do vinho é percebida, vivida e divulgada na Espanha.

O Gesto que Desencadeou o Milagre

A história da arquitetura de Gehry é marcada por monumentos que dialogam com seu entorno de maneiras inesperadas, como o Museu Guggenheim de Bilbao. No entanto, a concepção do Hotel Marqués de Riscal foi um processo mais íntimo, nascido de uma conversa e de um brinde. Quando a proposta de projetar um hotel dentro de um complexo vinícola com raízes no século XIX chegou às mãos do arquiteto, a resposta inicial não foi de imediato entusiasmo. Museus, centros culturais, edifícios que se tornam marcos urbanos – esses eram os palcos habituais de Gehry. Mas a Rioja Alavesa, com sua tradição secular e paisagens bucólicas, apresentava um desafio diferente.

O ponto de virada ocorreu durante uma visita a Elciego. Ali, em meio às barricas ancestrais e ao aroma inebriante da fermentação, os responsáveis pela Marqués de Riscal descorcharam uma garrafa da safra de 1929. Para Gehry, nascido naquele mesmo ano, o gesto foi mais do que uma cortesia; foi um convite a revisitar sua própria história através da longevidade e da complexidade de um vinho. A fascinação com a resiliência do vinho e a oportunidade de entrelaçar sua visão arquitetônica com a herança de uma bodega pioneira – a primeira a introduzir métodos bordaleses na Espanha em 1858 – foram os catalisadores. Nasceu ali a ideia de uma estrutura que fosse tão ousada quanto a própria história da bodega, um elemento que pudesse capturar o olhar e a imaginação, e que se tornasse um destino por si só.

Um Ícone que Atrai Estrelas e Cineastas

A deslumbrante silhueta do hotel, um turbilhão de titânio e cores vibrantes, rapidamente atraiu a atenção global. Em 2007, apenas um ano após sua inauguração, o hotel recebeu visitantes de peso: Brad Pitt e Angelina Jolie. No ano seguinte, Gwyneth Paltrow desembarcou na região para as gravações do programa gastronômico "Spain…On the Road Again", evidenciando o magnetismo do local. O impacto do hotel transcendeu o turismo de luxo e o mundo das celebridades, conquistando também o cinema espanhol. O cineasta Álex de la Iglesia escolheu o cenário singular do hotel como um ponto crucial em seu filme "El cuarto pasajero", demonstrando como a arquitetura de Gehry se tornou um personagem em si mesma.

Integrado à prestigiosa marca The Luxury Collection, o Hotel Marqués de Riscal oferece 61 acomodações, incluindo dez suítes, que se suspendem poeticamente entre o céu e os vinhedos. A experiência é complementada por um forte foco em bem-estar e gastronomia, com tratamentos exclusivos no Spa Vinothérapie Caudalie e uma proposta culinária de alta gastronomia sob a consultoria do chef Francis Paniego. O sucesso é medido não apenas pela admiração estética, mas também pelos números: cerca de 13.500 hóspedes anuais, majoritariamente dos Estados Unidos, Espanha, Reino Unido e Brasil, e mais de 100.000 visitantes anuais em toda a Ciudad del Vino. Reconhecimentos como a Llave Michelin e o título de "Melhor Vinhedo do Mundo" pelo World's Best Vineyards em 2024 solidificam sua posição.

Legado e Visão para o Futuro

A relevância institucional do espaço foi sublinhada em 5 de junho de 2025, quando o hotel sediou o ato central do centenário da Denominação de Origem Qualificada Rioja, presidido por S.M. o Rei Dom Felipe VI. Na ocasião, foram degoladas quinze garrafas históricas da safra de 1925, conservadas na mítica catedral subterrânea da bodega. Este evento simboliza a profunda conexão entre a arquitetura moderna e a história secular do vinho na região.

Olhando para os próximos vinte anos, a Marqués de Riscal, pioneira em tantas frentes, continua a inovar. A bodega equilibra seu legado histórico com projetos focados em agricultura regenerativa, eficiência energética e instalações solares, demonstrando um compromisso com a sustentabilidade e o futuro. O lançamento do exclusivo Club Jean Pineau, em homenagem a Gehry, com uma delicada aquarela do hotel em seu rótulo inaugural, une simbolicamente o arquiteto do titânio ao enólogo francês que ensinou à bodega a arte de envelhecer o vinho em barrica. "Celebramos nosso 20º aniversário brindando por continuar na vanguarda, mantendo nossas características de identidade", afirma Alejandro Aznar, presidente da Marqués de Riscal. A pergunta que paira é: como essa fusão de arte, história e vinho continuará a moldar o futuro do turismo e da cultura vinícola global?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España