Em vídeo publicado no canal The Frontier | Leadership em 21 de abril de 2026, Howard Marks afirma que tentar esperar pelo "fundo" do mercado é um dos maiores erros do mundo dos investimentos. O cofundador da Oaktree Capital Management argumenta que o fundo só pode ser identificado retrospectivamente, no dia em que os preços começam a subir. Em vez de buscar o momento perfeito, Marks defende que a única base racional para alocação é o preço relativo dos ativos. Segundo o investidor, o mercado opera em pêndulos extremos guiados pela dissonância cognitiva, ignorando más notícias durante ralis de otimismo e superdimensionando riscos em momentos de retração. A transição recente do mercado de impecável para sem esperança ilustra como a psicologia dos investidores distorce sistematicamente os fundamentos.
A anatomia das crises e a falsa dicotomia do valor
Marks relata a atuação da Oaktree durante a crise financeira de 2008 como prova empírica de sua tese sobre preços. Após a quebra do Lehman Brothers em meados de setembro daquele ano, a gestora possuía US$ 10 bilhões em capital não alocado. Diante do pânico sistêmico, a conclusão da firma foi binária: se o mundo financeiro derretesse, nenhuma decisão importaria; se não derretesse, não investir seria falhar fiduciariamente. Seu sócio, Bruce Karsh, alocou uma média de US$ 450 milhões por semana durante quinze semanas, focando na dívida sênior de empresas alvo de aquisições alavancadas, garantindo rendimentos entre 15% e 20%.
A disciplina de preço, segundo Marks, transcende a divisão histórica entre ações de valor e crescimento. O investidor lembra que a categorização se solidificou nos anos 1960 com as chamadas Nifty 50. Ele cita sua experiência no Citibank a partir de 1969, notando que investidores que mantiveram essas ações de crescimento por cinco anos perderam cerca de 95% do capital devido a superestimação e sobrepreço. Para contexto, a BrazilValley aponta que a polarização entre value e growth dominou a alocação institucional nas décadas seguintes, muitas vezes forçando gestores a ignorar empresas de alto crescimento sob a premissa rígida de que apenas múltiplos deprimidos ofereciam margem de segurança.
Após discussões com seu filho Andrew durante a pandemia, Marks consolidou no memorando "Something of Value", de janeiro de 2021, a visão de que empresas com altas taxas de crescimento podem ser excelentes investimentos de valor, desde que o preço pago seja apropriado. O foco deve estar em comprar bem, não apenas em comprar bons ativos.
A assimetria da venda e o jogo dos perdedores
A lógica de aquisição é complementada por uma visão contrária sobre liquidez. Referenciando seu memorando "Selling Out", de 2017, Marks questiona a irracionalidade de vender um ativo simplesmente porque seu preço subiu ou caiu. Ele sugere que a decisão de venda deve ser encarada como uma decisão de "descomprar": se o investidor não compraria o ativo aos preços atuais, a venda pode ser justificada. O viés de realizar lucros precocemente limita o potencial de composição de capital.
Para ilustrar o custo de oportunidade da venda precoce, Marks utiliza o caso da Amazon. A ação caiu de US$ 90 em 1999 para US$ 6 após o estouro da bolha das pontocom. Um investidor que comprou na mínima enfrentaria a tentação psicológica de vender ao dobrar o capital para US$ 12, ou ao atingir US$ 60 e US$ 600. Na época em que o memorando foi escrito, o papel era negociado a US$ 3.300. Vender a US$ 600 significaria deixar 85% do valor na mesa. Marks reforça a raridade de grandes teses citando que Warren Buffett construiu sua fortuna sobre cerca de doze grandes ideias, enquanto Charlie Munger dependeu de apenas quatro.
A agressividade em manter vencedores contrasta com a estratégia de crédito da Oaktree, fundamentada no ensaio "Winning the Loser's Game" de Charlie Ellis, publicado em 1974. Inspirado no tênis amador, onde o vencedor é aquele que comete menos erros não forçados, Marks estruturou sua firma focada no controle de risco. No mercado de crédito, evitar calotes é suficiente para garantir o retorno desejado, diferentemente do venture capital, onde é imperativo buscar os grandes multiplicadores.
A análise de Marks expõe a fragilidade de teses de investimento baseadas em previsões macroeconômicas ou gatilhos emocionais. Ao isolar o preço como a variável central e aceitar a impossibilidade de cronometrar o mercado, o investidor transfere o peso da decisão da adivinhação para a matemática da assimetria. O desafio persistente para o capital não é apenas identificar disrupções tecnológicas, como os recentes modelos de IA da OpenAI e Anthropic mencionados no vídeo, mas ter a disciplina de alocar risco apenas quando o preço absolve o erro e segurar o ativo enquanto a tese se provar verdadeira.
Fonte · Brazil Valley | Leadership




