O dilema da adoção versus transformação

A inteligência artificial (IA) deixou de ser uma promessa distante para se tornar uma ferramenta acessível a um número crescente de organizações. No entanto, uma distinção fundamental emerge neste cenário: adotar IA não é o mesmo que se transformar por meio dela. Movimentos como a implementação de copilots, o desenvolvimento de assistentes virtuais ou a experimentação com modelos generativos são passos importantes, mas a verdadeira transformação começa quando as empresas deixam de apenas perguntar como incorporar uma nova tecnologia aos processos existentes e passam a questionar a própria relevância desses processos.

Essa reflexão foi central em um painel recente na Febraban Tech, conduzido pela EY Brasil. A provocação para as lideranças foi clara: em um mundo onde a IA estará amplamente disponível, onde residirá a vantagem competitiva? Por muito tempo, a corrida pela transformação esteve centrada na tecnologia em si – quem possuía a melhor plataforma, a arquitetura mais avançada ou maior capacidade de processamento. A IA, contudo, começa a alterar essa equação. Não porque a tecnologia tenha perdido sua importância, mas porque estamos entrando em uma era onde ferramentas sofisticadas serão cada vez mais democratizadas. Organizações poderão acessar os mesmos modelos, usar infraestruturas similares e empregar ferramentas com capacidades equivalentes.

O valor do contexto e do conhecimento acumulado

Se a tecnologia se torna mais acessível, a questão que se impõe é: o que não pode ser simplesmente adquirido? Uma das respostas reside no contexto único que cada organização construiu ao longo do tempo. Dados acumulados, conhecimento sobre comportamentos de clientes, histórico de interações, a compreensão das diferentes etapas da jornada do consumidor e, crucialmente, a capacidade de interpretar essas informações para identificar e atender a necessidades específicas são ativos insubstituíveis. Isso é particularmente relevante em setores como o financeiro e o de seguros, onde o relacionamento, o conhecimento aprofundado e a confiança são pilares construídos ao longo de anos.

Por muito tempo, a personalização foi entendida como a capacidade de oferecer o produto certo ao cliente certo. A IA permite expandir essa lógica. Agora, é possível partir do contexto, do momento e da necessidade do cliente para, então, construir a solução mais adequada. A diferença, embora sutil, é profunda. De um lado, temos organizações que usam ferramentas sofisticadas para aprimorar a oferta de produtos já existentes. Do outro, empresas que empregam tecnologia para compreender necessidades latentes e redesenhar a forma como essas necessidades são atendidas.

A armadilha da eficiência sem inovação

Nesse novo ciclo, uma das principais armadilhas é utilizar uma tecnologia extraordinária apenas para executar processos antigos com maior eficiência. Automatizar etapas, reduzir tempo, eliminar atividades manuais e aumentar a produtividade são conquistas valiosas que geram valor. Contudo, se a estrutura fundamental da organização permanece inalterada, estamos diante de uma evolução operacional, e não necessariamente de uma transformação disruptiva.

A pergunta crucial para as empresas não deve ser apenas “como podemos incorporar IA neste processo?”, mas sim “se este processo fosse concebido hoje, considerando todas as capacidades da IA, ele ainda seria estruturado desta forma?”. A resposta a essa indagação pode demandar mudanças radicais, redefinindo a essência da vantagem competitiva. Em um cenário de acesso tecnológico cada vez mais igualitário, a diferença residirá menos na posse de uma ferramenta e mais na habilidade de cada organização de combiná-la com seus ativos intangíveis: dados, conhecimento, relacionamentos com clientes e uma profunda compreensão do próprio negócio.

Repensar o problema para inovar

Transformar-se por meio da IA, portanto, transcende a mera otimização de tarefas ou a aceleração de processos já existentes. Implica estar disposto a revisar premissas fundamentais, questionar processos estabelecidos e explorar novas formas de gerar valor, aproveitando ao máximo as potencialidades que a tecnologia oferece. Este pode ser um dos maiores desafios desta nova fase da transformação digital. A adoção de uma tecnologia pode começar com a implementação de uma ferramenta específica.

A verdadeira transformação, no entanto, inicia-se quando essa tecnologia passa a moldar a maneira como pensamos o problema que buscamos resolver. Na era da inteligência artificial, essa capacidade de repensar e redefinir pode se tornar tão ou mais relevante quanto a própria tecnologia. A inteligência artificial, em sua essência, é uma ferramenta poderosa para a amplificação da inteligência humana, mas seu potencial transformador só se concretiza quando aliada a uma visão estratégica que ousa questionar o status quo e a reinventar o futuro. A vantagem competitiva reside, afinal, na capacidade de ver além do óbvio, utilizando a tecnologia não como um fim em si mesma, mas como um catalisador para uma reinvenção profunda.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside