A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para se tornar uma realidade operacional em 18% dos estabelecimentos de saúde no Brasil. Segundo a 12ª edição da pesquisa TIC Saúde, coordenada pelo Cetic.br, o cenário atual reflete uma adoção ainda heterogênea, com uma clara divisão de forças entre o setor privado, que atinge 25% de penetração tecnológica, e a rede pública, estagnada em 11%. O levantamento, que ouviu 3.270 gestores, mapeia como a tecnologia vem sendo integrada tanto em processos administrativos quanto no suporte direto ao cuidado clínico.

Este avanço, embora notável, sublinha uma desigualdade estrutural que pode ditar o ritmo da inovação no sistema de saúde brasileiro nos próximos anos. A disparidade não é apenas financeira, mas estratégica, refletindo diferentes níveis de priorização institucional e acesso a infraestrutura digital básica necessária para suportar modelos de IA mais sofisticados. A leitura aqui é que o setor privado, pressionado por margens e pela necessidade de eficiência operacional, encontrou na tecnologia uma via de otimização, enquanto a rede pública enfrenta desafios de escala e orçamento que retardam a transformação digital.

O papel da IA na eficiência operacional

O uso da IA no setor de saúde brasileiro não se resume à aplicação clínica de ponta. A pesquisa aponta que 45% dos estabelecimentos utilizam a tecnologia prioritariamente para organizar processos clínicos e administrativos. Essa aplicação, muitas vezes invisível ao paciente, é o que permite a sustentabilidade de grandes redes, automatizando fluxos que antes consumiam horas da equipe médica. Em segundo lugar, a segurança digital aparece como um pilar fundamental, citada por 36% dos gestores, evidenciando a preocupação com a integridade de dados em um setor cada vez mais alvo de ataques cibernéticos.

Além disso, 32% dos estabelecimentos utilizam IA para melhorar a eficiência dos tratamentos, enquanto 26% já a aplicam no auxílio diagnóstico. O dado sobre a dosagem de medicamentos, presente em 14% dos locais, revela um potencial de redução de erros médicos que, se escalado, poderia gerar ganhos significativos na segurança do paciente. A tecnologia, neste contexto, atua como um suporte à decisão, validando o papel da IA como uma ferramenta facilitadora, e não substituta, da expertise humana.

Barreiras ao crescimento e o custo da inovação

O avanço da IA encontra um teto claro nos hospitais com mais de 50 leitos, onde o custo elevado (63%) e a falta de priorização institucional (56%) surgem como as maiores barreiras. A complexidade de implementar sistemas de IA vai além da compra de software; ela exige uma infraestrutura de dados robusta e uma cultura organizacional que entenda a tecnologia como um investimento de longo prazo. Sem um planejamento que integre a capacitação profissional, o risco é de que a tecnologia seja subutilizada ou, pior, implementada de forma ineficiente, gerando custos sem os ganhos de produtividade esperados.

Vale notar que a limitação de dados e a falta de pessoal qualificado, mencionadas por 51% dos gestores, indicam um gargalo educacional no país. A transição para uma saúde baseada em dados exige que profissionais de saúde desenvolvam uma nova camada de competências, unindo o conhecimento clínico à literacia digital. A consolidação de diretrizes éticas e marcos regulatórios, como apontado pelos pesquisadores do Cetic.br, torna-se, portanto, um requisito inegociável para garantir que a inovação não comprometa a privacidade e o cuidado com informações sensíveis.

Implicações para o sistema de saúde

Para o ecossistema brasileiro, a adoção da IA traz tensões imediatas entre a necessidade de modernização e a realidade orçamentária do SUS. Enquanto o setor privado consegue absorver os custos através de ganhos de eficiência e diferenciação competitiva, a rede pública depende de políticas públicas robustas que garantam a equidade no acesso à inovação. O risco de uma saúde de duas velocidades é real, onde a qualidade e a precisão do diagnóstico podem variar significativamente dependendo do acesso do paciente a um centro tecnológico de ponta.

Paralelamente, a regulação da IA no setor de saúde deve equilibrar a segurança do paciente com a necessidade de fomentar a inovação local. O Brasil, ao importar tecnologias de grandes players globais, corre o risco de tornar-se dependente de algoritmos que não foram treinados com a diversidade da população brasileira. O desenvolvimento de soluções nacionais, alimentadas por dados locais, parece ser o único caminho para uma soberania tecnológica que atenda às demandas específicas da demografia e do perfil epidemiológico do país.

O futuro da transformação digital

As perguntas que permanecem em aberto giram em torno da escalabilidade dessas soluções fora dos grandes centros urbanos. Como levar a eficiência da IA para o interior do país, onde a infraestrutura de rede e o acesso a especialistas são ainda mais escassos? A tecnologia, por si só, não resolverá problemas estruturais de gestão, mas pode ser o catalisador para uma nova era de eficiência se acompanhada de investimentos públicos consistentes.

O monitoramento contínuo da adoção de tecnologias como a internet das coisas (IoT) e a robótica, que ainda possuem taxas de penetração muito baixas no país, será fundamental para entender se o Brasil está apenas seguindo uma tendência global ou construindo uma base sólida para a saúde do futuro. A evolução dos próximos anos dirá se a IA será o motor de uma democratização no acesso ao diagnóstico ou apenas mais um elemento de segregação na qualidade do atendimento médico.

A integração da IA na saúde brasileira é um movimento irreversível, mas seu impacto real dependerá da capacidade do setor em superar as barreiras financeiras e culturais que ainda impedem sua plena adoção. O desafio não é apenas tecnológico, mas de governança e alocação de recursos, colocando em teste a capacidade das instituições em transitar para um modelo de cuidado mais preditivo, eficiente e, sobretudo, humano.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney