A onda de investimentos em data centers, alimentada pelo boom da inteligência artificial (IA), abriu uma nova fronteira para gestoras de infraestrutura: a busca por barganhas em ativos menos badalados. Enquanto bilhões de dólares são despejados em centros de dados e infraestrutura relacionada à IA, a atenção dos investidores tem se desviado de setores mais tradicionais, como transporte e gestão de resíduos. Agora, um movimento de retorno a ativos considerados "chatos", mas que geram caixa consistente, como aterros sanitários e terminais ferroviários, começa a ganhar força.
O Desvio de Atenção para o Digital
O apetite insaciável por capacidade computacional para treinar e operar modelos de IA direcionou um volume sem precedentes de capital para a infraestrutura digital. Mega-investimentos em data centers se tornaram a norma, com transações multimilionárias capturando os holofotes. A BlackRock, por exemplo, através de seu Global Infrastructure Partners, liderou um grupo que adquiriu a Aligned Data Centers por cerca de US$ 40 bilhões. A Partners Group, com seu quarto fundo de infraestrutura fechado em mais de US$ 15 bilhões, também investiu US$ 1 bilhão na AVK Power Solutions, fornecedora de energia para data centers na Europa. Essa concentração de capital no setor digital, no entanto, está criando um cenário onde ativos maduros e de alta qualidade em outras áreas da infraestrutura — como utilities, transporte e infraestrutura social — recebem menos atenção. Isso, segundo Nicholas Pepper, diretor-gerente da área de infraestrutura da Partners Group, está criando oportunidades para aquisições a "valuations atraentes".
O Retorno dos Ativos Tradicionais
Diante de atrasos na construção, aumento dos custos de financiamento e escrutínio regulatório que podem impactar a rentabilidade dos investimentos em IA, investidores começam a diversificar. A estabilidade e os fluxos de caixa previsíveis oferecidos por infraestruturas mais tradicionais ganham novo apelo. Setores como transporte e logística, aviação, gestão de resíduos e água, manutenção de pontes e rodovias, e processamento de gás natural atraem investidores em busca de rendimentos estáveis e receitas contratadas ou reguladas. Para gestoras focadas em middle-market, a migração dos grandes players para o setor de IA criou um "enorme fosso econômico", com menos concorrência em transações menores. Uma gestora canadense, por exemplo, adquiriu e modernizou o Stephenville International Airport em Newfoundland, demonstrando o potencial em ativos como aeroportos, que são escassos e podem gerar valor futuro.
Implicações para o Mercado e Gestoras
Grandes firmas como a Morgan Stanley Infrastructure Partners, apesar de investirem em data centers, também exploram o setor de gestão de resíduos. A atratividade reside na previsibilidade dos contratos municipais de longo prazo, baixa exposição a riscos de commodities e tensões geopolíticas, além de oportunidades de crescimento em regiões que buscam reduzir a dependência de aterros. Empresas americanas de gestão de resíduos, em particular, comandam um prêmio, negociando a cerca de 15 vezes o Ebitda, contra 10 vezes na Europa, devido a um modelo de negócios mais integrado, que abrange desde a coleta até o tratamento e disposição final. O setor de transporte, incluindo frete e logística rodoviária nos EUA, também apresenta oportunidades cíclicas. Após um período de excesso de capacidade e custos operacionais elevados, o setor pode estar em um ponto de entrada atraente para investidores, que competem com compradores estratégicos por ativos como portos e terminais ferroviários. O múltiplo mediano para transações estratégicas no setor de transportes caiu para 5 vezes o Ebitda no primeiro trimestre de 2026, de 12,7 vezes em 2025.
Perguntas em Aberto e o Futuro
Ainda que o foco principal do capital de infraestrutura esteja voltado para a revolução da IA, o futuro dos investimentos em ativos tradicionais dependerá da capacidade desses setores de inovar e se adaptar. A sustentabilidade e a eficiência na gestão de resíduos, a modernização logística e a resiliência das redes de transporte serão cruciais. Resta saber se a atual valorização desses ativos se manterá ou se a força gravitacional do capital retornará em massa para a infraestrutura digital. Para os investidores, o desafio será equilibrar a promessa de crescimento exponencial da IA com a segurança de retornos estáveis e previsíveis oferecida pela infraestrutura tradicional.
Source · The Information





