Um estudo conduzido na Itália usou inteligência artificial para analisar mais de 3.700 relatos de sonhos e experiências de vigília, chegando a uma conclusão intrigante: o cérebro passa a noite remixando a realidade, em vez de simplesmente reproduzi-la. A pesquisa, publicada na revista científica Communications Psychology, desafia a noção de que os sonhos são apenas ruído neural aleatório ou um replay fiel dos eventos do dia.

Segundo reportagem do The Register, a análise sugere que o cérebro adota uma abordagem mais criativa. Ele recicla memórias, emoções e lugares familiares para construir cenários inteiramente novos. A tese é que os sonhos não são um reflexo do real, mas uma reconstrução a partir de suas partes constituintes, um processo que agora pode ser estudado em escala.

A estrutura por trás do caos

Para chegar a essa conclusão, pesquisadores da IMT School for Advanced Studies Lucca utilizaram algoritmos de processamento de linguagem natural (PLN) para comparar a estrutura semântica dos relatos de sonhos e de experiências diárias. A tecnologia permitiu identificar padrões que seriam extremamente trabalhosos de encontrar manualmente, validando o uso de IA como uma nova ferramenta para a neurociência do sono.

O software detectou como cenários cotidianos, como escritórios ou salas de aula, eram fundidos nos sonhos com lugares desconhecidos ou pessoas de diferentes fases da vida do sonhador. O resultado é uma narrativa coesa, mas ilógica, que parece seguir uma gramática própria. A descoberta principal é que, mesmo no aparente caos dos sonhos, existe um método.

Espelhos da vida e da mente

O conteúdo dos sonhos também se mostrou um espelho da personalidade e do contexto de cada indivíduo. Participantes com tendência à divagação mental relataram sonhos mais fragmentados, que saltavam rapidamente entre cenas. Já aqueles que consideravam seus sonhos pessoalmente significativos descreveram experiências mais vívidas e imersivas.

De forma reveladora, a análise incluiu relatos coletados durante o lockdown da COVID-19, que continham mais referências a confinamento, barreiras e emoções intensificadas. Isso demonstra como a realidade externa molda ativamente o teatro noturno da mente. Liderado por Valentina Elce, o estudo não explica por que sonhamos, mas oferece um caminho promissor para entender como o fazemos.

A pesquisa abre uma nova fronteira para a análise dos sonhos, deslocando o foco da interpretação puramente qualitativa para uma análise de dados em larga escala. Embora a IA ainda não possa dizer por que seu chefe apareceu em seu sonho, ela já consegue confirmar que essa aparição não foi um mero acaso, mas parte de uma complexa e estruturada criação noturna.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register