A recente controvérsia envolvendo o romance "A vida maravilhosa de Thélyson Orélien", candidato ao prêmio Goncourt, e a suspeita de uso de Inteligência Artificial (IA) para sua escrita, reacende um debate antigo sobre autoria e o valor da assinatura. Embora o autor negue o uso de IA, a mera suspeita foi suficiente para que o livro fosse retirado da disputa, evidenciando uma mudança na percepção do público e da crítica. O fato de o texto permanecer inalterado, mas perder seu valor ou legitimidade aos olhos de alguns, sugere que a autoria transcende a mera combinação de palavras.

Essa discussão encontra ecos no ensaio "A morte do autor", de Roland Barthes, publicado em 1967. Barthes defendia que a obra, uma vez publicada, deveria ser interpretada pelo leitor, desvinculada das intenções e da biografia de seu criador. Quase seis décadas depois, a IA introduz uma nova camada a essa provocação: e se o autor for, em parte ou totalmente, uma máquina? A capacidade da IA de pesquisar, organizar informações e gerar textos coesos e fluentes desafia a noção tradicional de autoria, especialmente quando comparada ao trabalho de ghostwriters, que já são aceitos na produção de discursos e autobiografias de figuras públicas.

A diferença crucial, contudo, parece residir na responsabilidade. Enquanto um ghostwriter atua como um executor contratado, a IA opera em um campo cinzento onde a intenção e a tomada de decisão são menos claras. A assinatura de um autor, seja em um livro ou em uma reportagem, carrega um peso que vai além do texto em si. Ela implica apuração, verificação de fatos, compromisso com a verdade e, fundamentalmente, a disposição de assumir a responsabilidade pelo conteúdo publicado. A IA, por mais sofisticada que seja, não possui reputação a arriscar nem compromisso ético intrínseco.

O caso do Goncourt, e a reflexão que ele inspira, nos força a confrontar o que realmente valorizamos na criação de conteúdo. Se uma obra é boa, independente de quem a escreveu, por que a origem — humana ou artificial — deveria importar tanto? Talvez a resposta esteja na busca por algo intrinsecamente humano na autoria: a experiência vivida, a perspectiva singular e a responsabilidade assumida. A IA pode replicar a forma, mas a essência da autoria, que envolve risco e convicção, ainda parece pertencer ao domínio humano, pelo menos por enquanto.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Tech Review Brasil