As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos já são palco de um novo e preocupante fenômeno: a disseminação massiva de anúncios políticos criados com inteligência artificial. Campanhas e Comitês de Ação Política (PACs) já investiram mais de US$ 137 milhões em peças publicitárias geradas por IA, incluindo vídeos que simulam discursos e comentários de candidatos que nunca fizeram. A velocidade e a sofisticação dessas criações levantam sérias questões sobre a integridade do processo democrático e a capacidade dos eleitores de discernir a verdade.
Um exemplo notório é um vídeo de 85 segundos produzido pelo braço de campanha do Partido Republicano do Senado, onde o candidato texano James Talarico parece ler seus próprios tweets antigos e comentá-los de forma incisiva. No entanto, o conteúdo e os comentários foram inteiramente fabricados por IA. Especialistas como Hany Farid, da UC Berkeley, alertam que a maioria das pessoas não identificaria imediatamente a falsidade, especialmente quando a marcação de "IA GERADO" é pequena e discreta. A preocupação é que, até o dia da eleição, qualquer clipe de candidato na TV ou em feeds de redes sociais possa ser uma fabricação sem rótulo adequado.
O Desafio da Detecção e a Evolução das Fake News
Oren Etzioni, fundador da TrueMedia.org, uma organização sem fins lucrativos dedicada ao combate a deepfakes, tem alertado sobre essa ameaça há anos. Inicialmente, ele esperava que as operações de desinformação estrangeiras fossem as principais responsáveis por essa tática. Contudo, em 2026, a realidade se mostrou diferente: as deepfakes políticas estão sendo criadas e disseminadas por campanhas e PACs americanas, aparecendo tanto na televisão quanto nas plataformas digitais. A TrueMedia.org, que desenvolveu uma ferramenta de detecção de deepfakes de ponta, analisou dezenas de milhares de arquivos em eleições globais, mas a tecnologia ainda enfrenta desafios para acompanhar a velocidade da evolução da IA.
O investimento em anúncios de IA para as eleições de 2024, segundo a Wesleyan Media Project, foi inferior a US$ 50.000. No entanto, o cenário mudou drasticamente para 2026, com gastos que superam US$ 137 milhões. Algumas dessas peças são inofensivas, como animações sutis de fotos ou a substituição de imagens de banco de fotos por famílias sintéticas. Outras são claramente satíricas, beirando o absurdo, como anúncios que mostram políticos jardinando juntos ou propondo "pílulas da ilusão". O especialista em marketing de campanha Fred Davis observa que o custo de produção de tais cenas caiu drasticamente, de US$ 2 milhões para cerca de US$ 200.000, tornando a tecnologia mais acessível.
A Linha Tênue entre Sátira e Manipulação
No entanto, uma terceira categoria de anúncios de IA é projetada para ser acreditada, como o vídeo de James Talarico. Um anúncio do PAC Make Oklahoma Great Again, por exemplo, mostrou o candidato Mike Mazzei ao lado de Hillary Clinton com legendas como "Amante de Clinton. Odiador de Trump", sem qualquer indicação de ser gerado por IA, e foi veiculado extensivamente na TV de Oklahoma. Outro anúncio em Minnesota apresentava a candidata a senadora Peggy Flanagan em frente a uma pilha de dinheiro. Essa estratégia visa explorar a credulidade do eleitor, confundindo a percepção da realidade com narrativas fabricadas.
Estudos recentes indicam que a alfabetização midiática não é um escudo eficaz contra deepfakes. Uma pesquisa da Utah Valley University constatou que eleitores identificam deepfakes corretamente apenas cerca de 16% das vezes, e aqueles que se consideram "extremamente familiarizados" com a tecnologia não performam melhor do que os leigos. As leis existentes sobre deepfakes em eleições, presentes em pelo menos 31 estados americanos, também se mostram insuficientes. A Wesleyan Media Project observou que a taxa de anúncios rotulados é semelhante em estados com e sem leis específicas. Além disso, mesmo quando um rótulo aparece, ele é frequentemente ignorado ou mal interpretado pelos eleitores, como demonstrou um estudo da NYU, onde apenas 21% dos participantes identificaram a IA como a tecnologia envolvida, mesmo com um aviso de "manipulado por meios técnicos".
Proposta de Rótulo e a Necessidade de Regulamentação
Diante desse cenário, Oren Etzioni propõe uma solução direta e aplicável: o critério principal para a veiculação de um anúncio político deve ser o consentimento da pessoa retratada, e não a tecnologia utilizada. Se uma pessoa real não concordou em ser mostrada de determinada maneira, o anúncio deveria, obrigatoriamente, exibir um rótulo em linguagem clara, tanto na tela quanto no áudio, ou simplesmente não ser veiculado. Essa abordagem, segundo Etzioni, permitiria que gerentes de estação aplicassem o teste em segundos, contornando a dificuldade de definir "enganoso". A proposta se aplicaria a anúncios pagos, onde os broadcasters já realizam verificações.
A necessidade de uma regulamentação federal é cada vez mais clara. O próprio grupo comercial de consultores de campanha está solicitando um padrão federal para substituir o emaranhado de leis estaduais. Pesquisas recentes indicam que a maioria dos eleitores, tanto Democratas quanto Republicanos, deseja regras mais claras para o uso de IA na política. Com as eleições presidenciais de 2028 se aproximando, é crucial que as regras e os processos sejam estabelecidos agora para evitar uma inundação ainda maior de anúncios enganosos gerados por IA.
O futuro das eleições pode depender da capacidade de implementar mecanismos eficazes para garantir a transparência e a veracidade da informação, protegendo o eleitorado da manipulação algorítmica e preservando a integridade do debate democrático. A questão que permanece é se a ação regulatória acompanhará a velocidade da inovação tecnológica.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · GeekWire



