A ascensão da inteligência artificial (IA) está redefinindo o cenário profissional em Wall Street, elevando o patamar para os novos talentos. Com a automação de tarefas rotineiras — como a formatação de apresentações e a compilação de relatórios —, o sucesso inicial de um analista júnior já não depende apenas do número de horas dedicadas a essas atividades. Em vez disso, a ênfase recai sobre a capacidade de comunicar eficazmente as informações contidas nesses documentos, a aptidão para gerar ideias inovadoras e a habilidade de construir relacionamentos sólidos.

Essas são as conclusões de uma análise com "Estrelas em Ascensão de Wall Street", publicada pela Business Insider, que consultou profissionais de destaque em instituições como KKR, Evercore, General Atlantic e JPMorgan. A visão predominante é que a IA não diminui a importância das competências essenciais, mas as torna mais relevantes e necessárias em estágios mais precoces da carreira. A tecnologia atua como uma ferramenta que amplifica o desempenho dos mais capazes, enquanto aqueles que se limitam a deixar a IA fazer seu trabalho correm o risco de serem substituídos.

O Pensamento Crítico em Evidência

Um dos alertas mais recorrentes entre os profissionais consultados é o perigo de uma dependência excessiva da IA, que pode comprometer o desenvolvimento do raciocínio e do reconhecimento de padrões. Jim Tilson, diretor sênior da Evercore, enfatiza a importância de os juniores serem "aprendizes ativos", utilizando a IA como um auxílio para se tornarem mais inteligentes, e não como um substituto para o próprio pensamento. Diana Liu, investidora da Blue Owl Capital, compartilha dessa preocupação, aconselhando a criação de um arcabouço para a resolução de problemas antes de recorrer à IA para refinar a solução. "Deixe que ela seja sua ajudante, não uma substituta", recomenda.

As habilidades analíticas são vistas como um diferencial tremendo. Asher Hecht, principal da General Atlantic, destaca a importância de extrair insights dos dados fornecidos pela IA e de formular as perguntas corretas. Ele ressalta que a capacidade de observar tendências e padrões nos dados é algo que os profissionais correm o risco de perder de vista se não mantiverem um olhar crítico e independente. A IA pode processar informações, mas a interpretação e a geração de valor a partir delas ainda residem na capacidade humana.

A Perspectiva Pessoal como Diferencial

Em um ambiente cada vez mais mediado por algoritmos, a capacidade de formar e articular um ponto de vista próprio emerge como um ativo valioso. David Oppenheim, diretor-gerente da Evercore, observa que os juniores de maior desempenho são aqueles que pensam no "quadro geral", em vez de se limitarem a executar tarefas específicas. Daniel Borkenstein, principal de private equity da Apollo Global, utiliza a IA como um "parceiro de pensamento" para explorar teses, identificar riscos e comunicar tópicos complexos. No entanto, ele é enfático: a IA não oferece respostas prontas; é o profissional que deve trazer um ponto de vista inicial e trabalhar com a tecnologia para refinar a solução. O julgamento humano — a capacidade de tomar decisões ponderadas e de defendê-las em comitês de investimento — é o verdadeiro valor agregado que nenhuma IA consegue replicar atualmente.

A Conexão Humana e a Inteligência Emocional

Kate Casey, principal da KKR, aponta que a habilidade de se conectar com as pessoas se tornará um diferencial ainda maior. A capacidade de estabelecer uma ligação genuína é o que motiva uma equipe de gestão a trabalhar com determinado profissional. Fiona Ismail, descrita pela Business Insider como chefe global de crédito privado da JPMorgan, sugere que os jovens profissionais redobrem a atenção à escuta ativa, compreendendo não apenas o trabalho dos colegas, mas também os objetivos finais dos clientes. "A IA pode responder ao que você disse, mas não consegue chegar ao cerne do que alguém realmente está tentando dizer", afirma.

Seus colegas de JPMorgan, John Ballard e Ryan Febles, complementam essa visão. Ballard destaca a importância de estar "em sintonia" com os gestores diretos, compreendendo suas necessidades e preferências para navegar eficazmente as situações de trabalho. Febles, por sua vez, recomenda buscar experiências fora da zona de conforto para desenvolver a inteligência emocional. A confiança em colocar um profissional para representar a empresa perante clientes e equipes de gestão é um fator decisivo para os líderes, e essa confiança é construída sobre a capacidade de interagir e liderar em diversas circunstâncias.

Fundamentos Sólidos Antes da Automação

Embora a IA possa acelerar muitas das atividades tradicionais de profissionais juniores, há um consenso sobre a importância de não negligenciar as habilidades técnicas fundamentais. Jake Epstein, investidor da Blackstone, ensina aos analistas de primeiro ano que eles têm duas missões: entregar o trabalho designado e, crucialmente, aprender. Ele incentiva a realização de tarefas manualmente, pelo menos uma vez, para internalizar o processo. Em investimentos imobiliários, isso pode significar aprender a conduzir due diligence antes de usar a IA para otimizar tarefas subsequentes. Epstein vê a IA como uma oportunidade para explorar áreas do negócio que normalmente estariam fora do alcance dos juniores.

Maya Venkatraman, diretora-gerente do Morgan Stanley, reforça a necessidade de dominar os fundamentos. "Você ainda precisa do entendimento técnico para saber quando uma suposição é fraca, quando uma resposta não faz sentido", diz ela. A disposição para experimentar e aprender novas ferramentas — como os modelos de linguagem de grande escala (LLMs) e o chamado vibe coding, técnica de geração de código por prompts em linguagem natural — pode ser um diferencial. Mike Washington, diretor-gerente do Goldman Sachs, observa que os melhores jovens analistas de sua firma estão ganhando mais visibilidade por serem "fluentes" nos processos de IA. Investir tempo em cursos externos e aprendizado contínuo é visto como um investimento com retorno garantido.

Abrace a Incerteza e a Criatividade

A IA também abre portas para um trabalho mais criativo e estratégico. Cody Kiechle, diretor-gerente do Bank of America, acredita que a tecnologia libera os bancários para se dedicarem a ideias melhores, aconselhamentos mais sofisticados e estruturas de negócios mais inovadoras. "Isso nos empurra mais para o elemento de criatividade, em oposição a algumas das tarefas mais rotineiras que fizemos historicamente, o que é realmente empolgante", comenta.

Matthew Caltabiano, gestor de portfólio do Millennium Management, considera a resolução de problemas a habilidade mais importante. Ele sugere que os estudantes publiquem seus trabalhos online para atrair a atenção de investidores e empresas inovadoras. "Tenha uma boa ideia e execute-a incrivelmente bem", aconselha. Venkatraman, que financia a expansão de data centers, também enfatiza a importância de se sentir confortável com a incerteza e o desconhecido. Rex Johnson, chefe de volatilidade de ações da Walleye Capital, acrescenta que o sucesso em funções de mercado exige a capacidade de operar com informações imperfeitas, aprendendo a "falhar rapidamente" e a se reerguer após os reveses. A essência, portanto, reside em desenvolver a resiliência e a adaptabilidade em um ambiente de negócios em constante mutação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider