A próxima grande fronteira da inteligência artificial (IA) pode não ser definida por algoritmos inovadores, mas sim por infraestrutura física. A expansão da IA está transformando uma tecnologia digital em uma corrida por ativos tangíveis: chips de ponta, data centers massivos, redes de transmissão robustas e, crucialmente, uma oferta abundante de energia. A Agência Internacional de Energia (AIE) projeta que o consumo de eletricidade por data centers no mundo mais que dobrará até 2030, atingindo cerca de 945 TWh, um volume comparável ao consumo total do Japão. Essa demanda crescente explica o interesse de empresas de tecnologia em negociações diretas com geradoras de energia, investimentos em novas fontes e até apoio a projetos nucleares.
A nuvem, onde residem os algoritmos de IA, necessita de uma conexão constante à rede elétrica. O relatório "Energy and AI" da AIE detalha a dimensão dessa transformação, que impulsiona um ciclo de investimento sem precedentes. A PwC estima que os data centers demandarão US$ 31,6 trilhões em investimentos acumulados até 2050, com gastos anuais saltando de US$ 800 bilhões em 2026 para US$ 1,8 trilhão em 2050. Diferentemente de infraestruturas tradicionais, a constante substituição de GPUs, servidores e outros equipamentos de IA exige um fluxo contínuo de capital. A consultoria BIS estima que as cinco maiores empresas de tecnologia do mundo investirão mais de US$ 1 trilhão em iniciativas relacionadas à IA entre 2025 e 2026. Essa dinâmica confere à infraestrutura de IA uma dimensão macroeconômica, impactando setores como construção, energia, semicondutores, crédito e cadeias produtivas globais.
Uma nova geografia da inovação
A infraestrutura da IA está redefinindo a geografia da inovação. A necessidade de capacidade computacional em larga escala faz com que a disponibilidade de eletricidade confiável, competitiva e de baixa emissão se torne um fator decisivo na escolha de onde construir novos data centers. A PwC destaca a energia como um dos principais determinantes para esses investimentos. Paralelamente, a escassez de semicondutores representa outro gargalo significativo. Segundo a OCDE, a fabricação de wafers de silício está concentrada em China, Taiwan, Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos, respondendo por quase 90% da capacidade mundial. Mais de 90% dos chips lógicos de ponta são produzidos pela TSMC, em Taiwan. Essa concentração cria uma aparente contradição: uma tecnologia de fácil acesso para o usuário final depende de uma infraestrutura altamente concentrada, intensiva em capital e geograficamente específica.
O retorno do físico na economia digital
A era da transformação digital parecia ter relegado a importância de recursos físicos, como localização e infraestrutura, a segundo plano, valorizando o software e os ativos intangíveis. No entanto, a infraestrutura da IA aponta na direção oposta. A capacidade computacional é impossível sem energia; o treinamento de modelos de IA depende dela; a escala de produção de chips exige infraestrutura avançada; e data centers são inviáveis sem redes elétricas e de telecomunicações robustas. Consequentemente, fontes renováveis, gás natural, energia nuclear, sistemas de armazenamento, linhas de transmissão e semicondutores voltaram a integrar a pauta de discussões antes dominada por software e venture capital. A AIE prevê que cerca de metade do aumento da demanda elétrica dos data centers até 2035 será suprida por fontes renováveis, com gás e nuclear desempenhando papéis importantes. A nova economia digital, paradoxalmente, resgata a eletricidade, o território e a infraestrutura como elementos estratégicos.
Oportunidades e desafios para o Brasil
Poucos países possuem todos os requisitos para liderar a infraestrutura de IA, mas cada um pode ocupar um nicho na cadeia de valor. O Brasil, com sua matriz elétrica predominantemente renovável, vasta disponibilidade territorial e potencial de expansão da geração, apresenta uma oportunidade clara. O país já observa uma demanda crescente por conexão de grandes cargas elétricas. O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2035) do Ministério de Minas e Energia e da EPE já inclui data centers como cargas especiais com potencial para alterar o perfil de consumo de eletricidade nacional. Dependendo do cenário, data centers, hidrogênio e eletromobilidade podem representar entre 1,2% e 12,9% da demanda brasileira de eletricidade em 2035, elevando o tema de uma discussão tecnológica para um problema de planejamento energético.
Capturar valor além da infraestrutura
A busca por atrair esses investimentos já se reflete em propostas de políticas públicas. Um exemplo é o Redata, um regime de incentivos tributários discutido para estimular a instalação de data centers focados em computação em nuvem e IA. Embora uma política como essa possa aumentar a capacidade do Brasil de atrair parte da infraestrutura de IA, surge a questão fundamental: qual parcela do valor gerado por essa cadeia permanecerá no país? Hospedar servidores é distinto de desenvolver chips; fornecer energia é diferente de controlar modelos de IA; e armazenar dados não equivale a produzir a tecnologia subjacente. O Brasil detém uma vantagem energética que se tornou mais valiosa com a crescente dependência da IA em eletricidade. O desafio reside em converter essa vantagem em capacidade tecnológica, desenvolvimento de fornecedores, pesquisa, capital humano e inovação local. Na nova geografia da inovação, não é imperativo vencer todas as corridas, mas sim escolher em quais partes da cadeia de valor o país deseja atuar, buscando capturar conhecimento, produtividade e valor, em vez de permanecer apenas como fornecedor de recursos.
Com reportagem de Brazil Valley
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