A inteligência artificial generativa está redefinindo o mercado de serviços profissionais. Empresas como a Alturas Capital Partners, um fundo de investimento imobiliário, já utilizam a tecnologia para realizar internamente trabalhos que antes eram delegados a escritórios de advocacia externos, como a elaboração de contratos de locação. Essa mudança resulta em economias de centenas de milhares de dólares e acelera processos que antes levavam semanas.

Para os escritórios que perderam esse volume de trabalho, o desafio é existencial. A IA não apenas reduz custos, mas também elimina a necessidade de certas expertises que antes justificavam a contratação de serviços externos. Essa transformação está alterando os limites entre o trabalho interno e o terceirizado, impulsionando alguns escritórios a expandir seu escopo de atuação e levando outros a verem seus antigos clientes se tornarem concorrentes diretos. O cenário é amplificado pela pressão de grandes bancos, como os de Wall Street, que já exigem cortes de honorários de escritórios de advocacia devido à eficiência proporcionada pela IA.

O Novo Jogo da Concorrência: Economia e Escala

A capacidade da IA generativa de reduzir o custo de produção de documentos legais, análises de mercado, ativos criativos e software é notória. Quando uma equipe interna, munida de IA, consegue replicar com qualidade o que um provedor externo oferecia, o argumento para terceirizar enfraquece. Provedores de serviços precisam, portanto, encontrar novas formas de justificar sua existência e necessidade. Tradicionalmente, o valor se baseava na expertise especializada e métodos proprietários. A IA democratizou o acesso a conhecimentos que antes eram restritos a especialistas humanos, forçando uma mudança fundamental.

Essa dinâmica não é inédita. Na década de 1990, avanços em software e comunicação permitiram que muitas tarefas de back-office fossem terceirizadas de forma mais barata. Agora, a IA está invertendo essa tendência para trabalhos de maior valor agregado. Empresas de serviços devem repensar suas estratégias de venda, que antes se apoiavam unicamente na expertise. A nova batalha se dá pelo custo. A primeira linha de defesa é a melhoria da economia unitária, focando na redução do custo de produção. Em vez de defender a superioridade do trabalho humano, provedores devem construir infraestrutura para produzir em escala, com pipelines automatizados e custos diluídos entre múltiplos clientes. Essa escala pode permitir preços unitários menores do que os que um cliente individual conseguiria internamente.

Simplificando a Compra e Ocultando o Ônus Operacional

Além da economia de produção, provedores podem ganhar ao facilitar o processo de compra. Contratar um serviço externo envolve esforços como encontrar o especialista certo, negociar termos, explicar necessidades e integrar resultados. Cada hora gasta nesse processo fortalece o argumento para internalizar o trabalho. Soluções baseadas em IA, como agentes que recebem uma solicitação, realizam o trabalho e entregam a resposta diretamente nas ferramentas que o cliente já utiliza, eliminam essa fricção. A Moody's, por exemplo, desenvolveu agentes de IA que rodam análises de risco de crédito e entregam os resultados diretamente em planilhas do Microsoft Excel, onde os gestores de portfólio já trabalham.

Outra frente é assumir o ônus operacional. Embora internalizar tarefas com IA pareça simples, os custos de garantia de qualidade, manutenção, correção de erros e adaptação a modelos em constante mudança podem se acumular rapidamente. Esses custos ocultos, em horas de pessoal e retrabalho, podem rivalizar com as taxas originais pagas ao provedor. Empresas como a Thomson Reuters, com seu produto CoCounsel Legal baseado em sua vasta plataforma jurídica, oferecem a infraestrutura de conteúdo, citações verificáveis e trilhas de auditoria que clientes teriam dificuldade em replicar internamente. Ao tornar a compra mais fácil e o gerenciamento menos oneroso, os provedores podem se destacar.

O Futuro: Expertise Complementada por Sistemas

A sobrevivência dos provedores de serviços dependerá de vencer a comparação completa de "fazer ou comprar" do cliente: ser mais barato para operar, mais fácil de comprar e menos trabalhoso de gerenciar. Isso exige uma mudança fundamental de um modelo de entrega baseado unicamente em pessoas para um que integre pessoas e sistemas. A análise dos entregáveis que a IA generativa já executa com qualidade similar à humana é um primeiro passo. Comparar o custo total de produção interna com o custo de venda do serviço é crucial. Reduzir os passos entre a solicitação do cliente e a entrega de uma resposta utilizável, aproximando a expertise do ponto de uso, também é vital.

Para os clientes que consideram internalizar o trabalho, é essencial apresentar o custo real de operação, incluindo horas de verificação, retrabalho e conformidade. Se, mesmo assim, optarem pela internalização, manter um diálogo próximo e reavaliar a decisão em alguns trimestres, quando os custos se tornarem evidentes, pode ser uma estratégia. A IA não tornou a expertise inútil, mas elevou o patamar do que os provedores precisam oferecer. As empresas que prosperarão serão aquelas que tornarem a compra de seus serviços mais barata, fácil e menos onerosa do que a construção interna.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Sloan Management Review