O financiamento para fundos de capital de risco (VC) especializados em tecnologia climática sofreu uma queda acentuada de quase 40% em 2025, comparado ao ano anterior. No entanto, um contraponto notável emerge com o crescente papel da inteligência artificial (IA) no ecossistema de investimentos climáticos. A IA não apenas mudou a conversa em torno das soluções para o clima, mas também se tornou um catalisador para novos negócios e investimentos, especialmente em setores críticos como energia e infraestrutura para data centers.
O Cenário de Investimentos em Tecnologia Climática
A tecnologia climática, que já teve seus altos e baixos em termos de atratividade para investidores ao longo dos últimos 15 anos, encontra-se em um momento de reaquecimento. A demanda exponencial por poder computacional para treinar e operar modelos de IA tem gerado uma necessidade sem precedentes por fontes de energia robustas e sustentáveis. Isso coloca tecnologias como energias renováveis, armazenamento de energia e a modernização da base industrial dos EUA de volta ao centro das atenções.
Segundo John MacDonagh, analista sênior de pesquisa da PitchBook, a IA atua como um "tailwind" (vento a favor) para o setor. "Os desenvolvedores de data centers buscam fontes de energia para suportar seus projetos, e o espaço de tecnologia climática possui tecnologias centrais como renováveis, que podem ser implantadas rapidamente e a um custo relativamente baixo", explicou. Contudo, os desafios de intermitência das renováveis podem ser mitigados por tecnologias de armazenamento de energia. Fontes de energia firmes (firm power), embora menos maduras e exigindo substancial investimento para desenvolvimento e comercialização, são vistas como mais adequadas para aplicações em data centers.
IA como Catalisadora de Oportunidades
A ascensão da IA, paradoxalmente, tem criado um ambiente onde as empresas de tecnologia climática encontram mais oportunidades de investimento. Dawn Lippert, fundadora e CEO da Elemental Impact e GP da Earthshot Ventures, observa que cerca de 90% das empresas apoiadas pela Earthshot contam com investidores generalistas como co-investidores. "Acreditamos que é realmente útil ser um investidor climático na cap table dessas empresas, questionando o impacto social, o impacto ambiental; às vezes, somos os únicos no ambiente a fazer essas perguntas", afirmou Lippert.
Mike Schroepfer, ex-CTO da Meta e agora sócio fundador da Gigascale Capital, levantou US$ 250 milhões para um fundo focado em clima. Ele relatou que, apesar de ter sido sugerido a renomear seu fundo para um de IA, ele recusou. "Como Dawn disse, nossos co-investidores mais frequentes são generalistas ou investidores de follow-on, e vimos mais capital vindo deles", disse Schroepfer. Ele ressalta, no entanto, que o cenário é "um conto de duas cidades": "Se você está no setor de energia, minerais críticos, qualquer coisa na cadeia de suprimentos, há mais dinheiro do que jamais vi de um ponto de vista de investimento para fazer esse trabalho."
Implicações para o Ecossistema de Investimento
A dinâmica atual sugere uma bifurcação no mercado de venture capital para o clima. Enquanto a captação de recursos para fundos exclusivamente climáticos diminui, o capital direcionado a soluções climáticas específicas, impulsionado pela demanda de IA, parece robusto. Investidores generalistas estão cada vez mais participando de rodadas de financiamento em startups climáticas, trazendo não apenas capital, mas também uma perspectiva mais ampla que pode complementar o foco especializado dos VCs climáticos.
Essa colaboração é crucial. Para que tecnologias climáticas avancem e escalem rapidamente, é necessário um fluxo de capital consistente e diversificado. A IA, ao aumentar a necessidade de energia limpa e confiável para alimentar suas operações, inadvertidamente cria um mercado mais forte para as soluções que os VCs climáticos buscam financiar. A questão que se coloca é se essa tendência de "co-investimento" e o interesse renovado em setores específicos serão suficientes para reverter a tendência geral de queda no financiamento.
Perguntas em Aberto no Horizonte Climático
Apesar do otimismo gerado pela IA, permanecem questões importantes. A maturidade das tecnologias de armazenamento de energia e de fontes de energia firmes é um gargalo que precisa ser superado para atender plenamente à demanda dos data centers. Além disso, a capacidade dos investidores generalistas de avaliar adequadamente os riscos e impactos ambientais e sociais de longo prazo em comparação com os VCs especializados ainda é um ponto de debate.
O futuro do financiamento em tecnologia climática dependerá da capacidade do setor de demonstrar retornos financeiros sólidos, ao mesmo tempo em que aborda os desafios ambientais urgentes. A integração da IA nas soluções climáticas pode ser a chave, mas a sustentabilidade desse modelo de investimento, especialmente em face de regulamentações em evolução e da volatilidade do mercado, ainda está sendo definida. Será que a IA será apenas um impulso temporário, ou uma transformação fundamental para o investimento em clima?
Source · Fortune





