Metade dos profissionais no Brasil já criou automações, aplicativos ou integrações sem a necessidade de um projeto formal de Tecnologia da Informação (TI). O dado, revelado pela pesquisa Panorama Vibe Coding Brasil, da Skyone, em parceria com o Grupo TNS, com 1.971 participantes, indica que este movimento é recente: 43% dos respondentes afirmam que essa prática ocorreu nos últimos seis meses.

O estudo batiza esse cenário de "Shadow IT 2.0", uma nova dimensão do "Shadow IT" tradicional, onde a Inteligência Artificial Generativa (GenAI) e o "vibe coding" permitem que aplicações sejam construídas pelos próprios usuários, escapando do radar da TI. Felipe Wasserman, diretor de Marketing e Growth da Skyone, alerta que a facilidade de acesso à IA derrubou barreiras de entrada, mas também significa que soluções podem ganhar escala antes de passar por controles corporativos. "Quando uma ferramenta começa a acessar dados corporativos, ser usada por várias pessoas ou sustentar um processo relevante, deixa de ser apenas um experimento. É aí que a falta de visibilidade vira um problema real de governança", afirma Wasserman.

A Ascensão do "Citizen Developer" com IA

A pesquisa detalha que, entre os que criaram soluções sem TI, 85,2% o fizeram sem o envolvimento formal da área de tecnologia. Em 51,1% dos casos, o próprio profissional desenvolveu a solução sozinho; em 34,1%, foi o time, também sem participação formal da TI. Apenas 14,8% contaram com apoio pontual da área. Esse fenômeno, impulsionado pela democratização do acesso a ferramentas de IA, permite que colaboradores de diferentes áreas, não apenas de tecnologia, criem soluções para otimizar tarefas e processos. A capacidade de gerar código, automatizar fluxos de trabalho e construir interfaces de forma intuitiva, muitas vezes com comandos em linguagem natural, empodera o chamado "citizen developer".

O estudo aponta que a prática se estende a diversas funções. Pelo menos metade dos entrevistados em cargos de C-level de tecnologia (62,7%), analistas e especialistas (57%), gerentes e coordenadores (55,1%), desenvolvedores e engenheiros de software (51,8%) e C-levels de negócios ou operações (50,5%) já participaram da criação de soluções fora de projetos formais de TI. Empresas maiores parecem impulsionar mais essa autonomia, com 58,9% dos respondentes em organizações com mais de mil funcionários relatando criação própria, contra 40% em companhias menores.

Desafios de Governança e Segurança

Apesar da autonomia crescente, a falta de diretrizes claras sobre o uso de IA e dados corporativos é um gargalo significativo. Para 42,9% dos participantes, suas empresas não possuem regras sobre quais dados corporativos podem ser utilizados em ferramentas de IA. Apenas 26,3% trabalham em organizações com regras claras, enquanto 18,6% afirmam que as diretrizes existem, mas são mal comunicadas. Essa ausência de controle formal gera riscos de segurança e conformidade, pois dados sensíveis podem ser expostos ou mal utilizados.

O "Shadow IT 2.0" exige uma mudança de postura das empresas. Wasserman enfatiza a necessidade de "menos reação tardia e mais visibilidade, critérios e acompanhamento desde o início". O risco não está na experimentação em si, mas na falta de conhecimento sobre o que foi criado, quem utiliza, quais dados circulam e quem é responsável em caso de falhas. A pesquisa também revela que, entre os que criaram com o time sem envolvimento formal da TI, 15,6% citam segurança ou governança como preocupação, percentual que sobe para 23,1% entre quem desenvolveu individualmente.

Implicações para o Ecossistema de TI

A pesquisa identificou que 52% das soluções criadas foram automações de processos, 47,6% aplicativos internos, 33% assistentes de IA, 18,7% integrações e 14,4% chatbots. A principal barreira para quem ainda não cria por conta própria é a falta de conhecimento técnico (52,6%). A expansão do "citizen development" com IA levanta questões sobre o futuro do departamento de TI. Em vez de apenas controlar o acesso a ferramentas, a TI precisará atuar mais como facilitadora e orientadora, ajudando a definir políticas de uso, garantir a segurança e integrar essas soluções "fora do radar" ao ecossistema corporativo.

As empresas que não se adaptarem correm o risco de perder agilidade e inovação, mas também de enfrentar incidentes de segurança e conformidade. A democratização da criação de soluções com IA é uma tendência irreversível, mas sua adoção segura e eficaz dependerá da capacidade das organizações em equilibrar autonomia e controle, estabelecendo diretrizes claras e promovendo uma cultura de responsabilidade digital.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside