A inteligência artificial (IA) está moldando o futuro do setor financeiro, e sua aplicação na gestão de riscos bancários é um dos focos de maior atenção. Um estudo global conduzido pela EY em parceria com o Institute of International Finance (IIF) com 101 bancos de 31 países aponta que a percepção majoritária entre os executivos de risco (CROs) é de que a IA não levará a uma redução significativa de postos de trabalho na área nos próximos três anos. Em vez disso, a tecnologia é vista como uma ferramenta para aumentar a eficiência e impulsionar a realocação de profissionais para funções mais estratégicas e especializadas.
A pesquisa revelou que 56% dos executivos entrevistados acreditam que a IA tornará o dia a dia mais eficiente, exigindo que os profissionais se concentrem em tarefas de maior valor agregado. Essa visão sugere uma transformação no perfil da força de trabalho, onde a automação de atividades rotineiras, como coleta de dados e geração de relatórios, liberará tempo para que os colaboradores se dediquem a análises mais complexas e à tomada de decisões estratégicas. A IA, portanto, não seria uma substituta, mas sim uma aliada na otimização dos processos de gestão de riscos tradicionais.
Novos Desafios e Especializações
Paralelamente à otimização dos riscos tradicionais, o estudo destaca um aumento na demanda por novas especializações dentro da gestão de riscos. Com 51% dos respondentes indicando essa tendência, a necessidade de contratar profissionais com expertise em áreas emergentes como cibersegurança, sustentabilidade, computação quântica e governança em inteligência artificial se torna cada vez mais premente. Rui Cabral, sócio-líder de risco e finanças para o setor financeiro da EY Brasil, ressalta que essas áreas trazem novas demandas, inclusive regulatórias, para as instituições financeiras. A IA, ao assumir a gestão dos riscos mais convencionais, permite que os profissionais se voltem para esses novos e complexos desafios de mercado, redefinindo o escopo da área de gestão de riscos.
Essa transição para novas especializações é corroborada pela expectativa de que o treinamento de profissionais em IA e ciência de dados será a iniciativa mais citada (79%) para a evolução das funções de gerenciamento de riscos. Isso implica um investimento crescente por parte dos bancos no desenvolvimento de suas equipes, capacitando-as para utilizar modelos analíticos avançados e ferramentas de IA. A diminuição das funções manuais tradicionais (64%) e o surgimento de profissionais híbridos, com proficiência tanto em gestão de riscos quanto em IA (55%), são outras tendências fortes que apontam para um futuro onde a tecnologia e o capital humano colaboram de forma sinérgica.
Implicações para o Ecossistema Bancário
As implicações dessa transformação são multifacetadas para o ecossistema bancário. Para os profissionais, o cenário aponta para a necessidade de aprendizado contínuo e adaptação, com um foco crescente em habilidades analíticas, tecnológicas e de pensamento estratégico. Para os bancos, a adoção da IA na gestão de riscos representa uma oportunidade de aumentar a eficiência operacional, aprimorar a tomada de decisões e mitigar riscos de forma mais proativa. No entanto, também exige investimentos em tecnologia, treinamento e na criação de novas estruturas de governança para garantir o uso ético e regulatório das ferramentas de IA.
A pesquisa, que incluiu 10% de G-SIBs (instituições financeiras globais consideradas 'too big to fail'), abrangeu bancos de diversas regiões, como América do Norte (30%), Ásia-Pacífico (20%), Europa (20%), América Latina (20%) e Oriente Médio/África (10%). Essa diversidade geográfica e de porte das instituições confere robustez aos achados, sugerindo que a percepção sobre o impacto da IA na gestão de riscos é um fenômeno global.
Perguntas em Aberto e o Futuro da Gestão de Riscos
Apesar do otimismo predominante, algumas questões permanecem em aberto. Apenas 16% dos executivos esperam uma redução significativa do número de colaboradores, enquanto 15% preveem equipes menores e mais especializadas. Essa minoria aponta para a possibilidade de que, em alguns contextos específicos, a automação da IA possa levar a uma consolidação de funções. A introdução de novos cargos focados na governança de sistemas de IA, garantindo modelos éticos, explicabilidade e conformidade regulatória, é outra área emergente que demanda observação atenta.
O caminho à frente envolve equilibrar a adoção tecnológica com o desenvolvimento do capital humano. A gestão de riscos, longe de ser extinta, parece caminhar para uma fase de maior sofisticação e especialização, onde a inteligência artificial atuará como um catalisador para a eficiência e a inovação, demandando, contudo, uma força de trabalho mais qualificada e adaptável às novas realidades do mercado financeiro global.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





