A alocação em venture capital (VC) no Brasil, especialmente em um cenário de juros elevados como o atual, frequentemente levanta questionamentos sobre sua viabilidade. A resposta reside na distinção fundamental entre renda fixa e VC: enquanto o primeiro remunera o capital pelo tempo, o segundo oferece exposição a transformações capazes de multiplicar o valor das empresas ao longo de muitos anos. O potencial de investir em mudanças de longo prazo, que não respondem diretamente aos incentivos macroeconômicos de curto prazo, é imenso. A história brasileira é repleta de exemplos, como a expansão agrícola, a modernização bancária, o ciclo das commodities, o surgimento das fintechs e o crescimento do SaaS, que prosperaram apesar de crises políticas, juros altos e volatilidade cambial. A criação de riqueza nesses casos ocorreu porque transformações estruturais eram mais significativas que os ciclos macroeconômicos. A ascensão da inteligência artificial (IA) representa uma nova onda transformadora dessa magnitude. Para investidores, o desafio não é apenas reconhecer a relevância da IA, mas identificar onde o mercado precificou essa transformação e, crucialmente, onde ela ainda pode estar subestimada.
A IA Native Services e a Economia de Serviços
A exposição mais óbvia à revolução da IA concentra-se nos Estados Unidos, berço dos maiores laboratórios, modelos e capital, além de uma densidade incomparável de talento técnico. Israel se destaca em deep tech e cibersegurança, e a China combina escala com velocidade de adoção. O Brasil, contudo, não compete diretamente nesse cenário e nem precisa. A oportunidade brasileira reside em aplicar a IA a problemas que o país conhece profundamente, abrindo espaço para a geração de alfa — retornos advindos de oportunidades ainda não refletidas no consenso do mercado. A primeira transformação que torna o Brasil particularmente interessante é a emergência dos AI Native Services. Por décadas, o software foi desenvolvido para auxiliar o trabalho humano. Agora, a IA permite a criação de empresas que executam partes desse trabalho, expandindo drasticamente o mercado potencial. Soluções em cobrança, contabilidade, compras, atendimento e compliance podem aumentar a capacidade de profissionais como contadores e analistas, ou a eficiência de escritórios de advocacia. O salto mais significativo ocorre quando a produtividade gerada pela IA deixa de ser uma ferramenta para o profissional e passa a integrar o próprio produto. Empresas deixam de vender apenas licenças de software e começam a comercializar trabalho executado ou resultados entregues. Isso as habilita a competir não apenas pelos orçamentos de tecnologia, mas também por parcelas historicamente destinadas a serviços, consultorias e equipes operacionais. Em uma economia onde cerca de 70% do PIB advém do setor de serviços, a dimensão dessa oportunidade é substancial.
Complexidade Estrutural como Vantagem Competitiva
A segunda mudança, mais particular ao Brasil, é a possibilidade de transformar a complexidade estrutural do país em vantagem competitiva. Questões tributárias, regulatórias, financeiras e operacionais, conhecidas como o "Custo Brasil", podem se tornar matéria-prima para a criação de novas empresas na era da IA. Quanto maior o número de regras, exceções, documentos e obrigações em um processo, maior o valor de sistemas capazes de interpretá-los e executá-los com eficiência. Isso abre espaço para soluções desenvolvidas especificamente para problemas brasileiros, diminuindo a vantagem de produtos genéricos criados para mercados mais simples. É uma inversão notável: aquilo que historicamente dificultou a operação das empresas no país pode gerar uma camada de problemas sofisticados o suficiente para dar origem a companhias locais valiosas. Essa dinâmica sugere que a IA pode não apenas otimizar processos existentes, mas também criar novas soluções a partir de desafios intrínsecos ao ambiente de negócios brasileiro, gerando um diferencial competitivo para empresas que souberem explorar essa complexidade.
Convergência entre IA, Operações e Finanças
O terceiro vetor de oportunidade é a convergência entre inteligência artificial, operações e serviços financeiros. Historicamente, empresas brasileiras demonstraram que controlar um fluxo operacional pode abrir portas para controlar também o fluxo transacional e financeiro associado. A IA tende a aprofundar essa dinâmica. À medida que um sistema de IA evolui de organizar informações para executar tarefas, recomendar decisões e participar ativamente de processos de negócio, ele se aproxima do ponto de transação. Empresas presentes nesse momento podem oferecer pagamentos, crédito, seguros e outros produtos financeiros. O Brasil possui uma infraestrutura particularmente fértil para essa convergência. O Pix, a digitalização bancária e o arcabouço financeiro desenvolvido nas últimas décadas reduzem a distância entre a execução de uma operação e a participação na transação financeira que dela deriva. A oportunidade brasileira em IA, portanto, pode não estar onde se busca inicialmente. Não se trata de construir os maiores modelos do mundo ou competir na vanguarda da infraestrutura tecnológica. O valor pode ser criado ao aplicar essa infraestrutura a uma economia de serviços vasta, a problemas locais complexos e a um sistema financeiro já preparado para incorporar novas camadas tecnológicas. Para investidores de VC, esse tipo de transformação é o cerne da geração de valor, oferecendo exposição a empresas com potencial de crescimento desproporcional em meio a mudanças estruturais de mercado.
Talvez o Brasil não seja protagonista na criação da inteligência artificial, mas pode se posicionar entre os mercados que mais valor criam ao colocá-la para trabalhar de forma eficaz e estratégica. Edson Rigonatti é cofundador e general partner da Astella.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





