A jornada para adquirir um imóvel, um dos marcos financeiros mais significativos na vida dos brasileiros, está passando por uma profunda transformação digital. Ferramentas de inteligência artificial (IA), como as oferecidas pela Morada.ai, já mediam uma parcela crescente das interações iniciais entre consumidores e incorporadoras. Dados recentes da plataforma revelam um salto de 79% no volume de conversas automatizadas nos últimos 12 meses, totalizando cerca de 2,77 milhões de interações com aproximadamente 36 milhões de mensagens trocadas. O que chama a atenção, contudo, é a baixa taxa de solicitação de atendimento humano logo no primeiro contato: apenas 1,3% dos usuários pedem a intervenção de um corretor. Esse cenário levanta um debate crucial sobre a evolução do papel do profissional no mercado imobiliário.

O novo ponto de partida da busca

As conversas mediadas por IA em cerca de 300 incorporadoras e loteadoras clientes da Morada.ai oferecem um vislumbre das prioridades dos potenciais compradores. A análise das interações revela que, enquanto o preço é um fator primordial para segmentos de médio e alto padrão (presente em 54,4% das conversas), o financiamento e as condições de crédito ganham destaque no programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), sendo abordados em 19,5% das conversas. Essa distinção sublinha uma mudança na dinâmica inicial da busca por imóveis. Em vez de focarem diretamente nas características do imóvel, muitos consumidores, especialmente no segmento econômico, iniciam a interação buscando entender sua própria capacidade de compra e as viabilidades de financiamento. A localização, por sua vez, mantém-se como um critério de busca constante, aparecendo em mais de 60% das interações em todos os segmentos.

A complexidade do crédito e a função do corretor

Apesar da automação crescente, a complexidade inerente ao financiamento imobiliário, especialmente no contexto do programa Minha Casa, Minha Vida, que responde por mais de 50% das vendas de unidades residenciais novas, reforça a importância do corretor. Luís Veloso, cofundador da Morada.ai, aponta que, nesse segmento, a venda se assemelha mais à de um crédito imobiliário do que a de um imóvel em si. Renée Garófalo Silveira, CEO da Open, corrobora essa visão, destacando que o corretor, no mercado econômico, atua como um facilitador para que o cliente descubra sua capacidade de pagamento e encontre o produto ideal. Essa função consultiva vai além da simples apresentação de unidades; envolve orientação sobre programas habitacionais, simulações de crédito e esclarecimento de dúvidas sobre taxas e condições, temas que exigem um conhecimento especializado e uma abordagem personalizada, algo que a IA, em sua forma atual, ainda não consegue replicar com a mesma profundidade e empatia.

Formação e desafios do corretor

A profissão de corretor de imóveis no Brasil exige registro no Creci e, tradicionalmente, a conclusão do curso de Técnico em Transações Imobiliárias (TTI). No entanto, a percepção de especialistas como Renée Silveira é que o TTI oferece uma base consideravelmente básica. A rápida evolução do mercado, impulsionada por novas tecnologias e pela crescente sofisticação das demandas dos consumidores, exige uma atualização contínua. Conceitos de empreendedorismo, ferramentas digitais, estratégias de marketing e, notavelmente, o uso de inteligência artificial, tornam-se cada vez mais cruciais. A discussão sobre a atualização da formação e a possível reintrodução de exames de proficiência, que já foram tentados no passado, reflete a necessidade de adaptar os profissionais a um cenário onde a informação é abundante, mas a compreensão e a negociação eficazes ainda dependem de expertise humana.

O futuro da intermediação: IA como ferramenta, não substituta

O avanço da inteligência artificial no setor imobiliário não deve, segundo os especialistas, eliminar o papel do corretor, mas sim redefinir suas atribuições. A IA tende a assumir tarefas de triagem, qualificação inicial de leads e organização de informações, liberando o profissional para se concentrar em aspectos mais complexos e emocionais da negociação. Ronal Balena, fundador da MySide, sugere que, embora a tecnologia possa fornecer dados objetivos e comparações, a decisão final de compra de um imóvel é intrinsecamente ligada a expectativas familiares, inseguranças e momentos de vida. Portanto, a interação humana direta e o relacionamento de confiança com um profissional qualificado permanecem insubstituíveis em etapas cruciais. O corretor do futuro, Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney