No final do século XVIII, a máquina a vapor desencadeou a Primeira Revolução Industrial, alterando a geografia econômica mundial e gerando a "Grande Divergência", um fosso de riqueza e desenvolvimento entre as nações que dominaram a nova tecnologia e as que ficaram para trás. Quase três séculos depois, a inteligência artificial (IA) apresenta um cenário similar, com o potencial de aprofundar divisões em vez de diminuí-las.

A discussão sobre a IA como catalisadora de uma "Nova Grande Divergência" foi levantada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A análise sugere que os benefícios da IA serão desproporcionalmente maiores em países e empresas que já possuem infraestrutura digital, capacidade computacional, energia, capital e profissionais qualificados. Essa concentração de vantagens pode criar um novo abismo, replicando os padrões históricos de desigualdade.

Convergência Tecnológica e Riscos de Divergência

A Internet, trinta anos atrás, foi vista como uma força niveladora, capaz de conectar o mundo e democratizar o acesso à informação. Embora tenha transformado a comunicação e o comércio, criando gigantes corporativos e digitalizando serviços, ela não eliminou as disparidades existentes. A IA, no entanto, representa um salto qualitativo, pois não se limita a acessar e distribuir informação, mas participa ativamente da execução do trabalho. A capacidade da IA de escrever, programar, analisar dados e auxiliar em diagnósticos a insere diretamente nas operações econômicas, alterando profissões e sistemas.

A Disputa pela Fronteira da IA

Países como Estados Unidos e China lideram a corrida pela vanguarda tecnológica da IA. Os EUA contam com capital, infraestrutura computacional e um ecossistema de inovação robusto. A China, por sua vez, tem demonstrado agilidade em reduzir a distância tecnológica, combinando pesquisa, indústria e capacidade de implementação, mesmo diante de restrições. A Europa, historicamente protagonista em revoluções industriais anteriores, enfrenta dificuldades para recuperar o espaço perdido, com o centro de gravidade tecnológico da IA deslocando-se.

O Brasil na Franja da Nova Revolução

O Brasil, embora reconhecido pela CEPAL como um dos pioneiros latino-americanos em IA, com um mercado consumidor expressivo, população hiperconectada e produção científica relevante, encontra-se na "franja do sistema". O país representa uma pequena parcela da economia mundial e recebe um investimento global em IA significativamente baixo. A questão central para o Brasil não é se utilizará IA, mas qual posição ocupará na cadeia de valor global. A tendência aponta para um papel de mercado consumidor, fornecendo infraestrutura como data centers, mas sem participar ativamente da riqueza gerada pela economia da IA.

Perguntas em Aberto para o Futuro

A velocidade com que a tecnologia da IA se espalha globalmente é sem precedentes, permitindo que inovações cheguem simultaneamente a diferentes partes do mundo. Contudo, essa convergência tecnológica não garante uma partilha equitativa dos seus benefícios. A principal interrogação reside em como o Brasil e outras economias emergentes poderão transitar de meros consumidores para participantes ativos na criação e na captura de valor gerado pela IA, evitando assim aprofundar as desigualdades históricas.

A convergência tecnológica já é uma realidade palpável, moldando o futuro da economia global. A disputa agora se concentra em quem definirá as regras e colherá os frutos dessa nova era, com implicações diretas para a soberania digital e o desenvolvimento econômico das nações. A participação ativa da sociedade civil nas discussões sobre o futuro da tecnologia no país é crucial para evitar que o Brasil perca o bonde da inovação. Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Tech Review Brasil