O crescente investimento em inteligência artificial (IA) começa a repercutir para além do universo digital, impactando diretamente a infraestrutura física, o consumo de energia e o mercado de commodities. Segundo um relatório do banco suíço UBS, a expansão da IA está elevando a demanda por eletricidade, especialmente para alimentar data centers, e impulsionando a necessidade de investimentos em redes elétricas e eletrificação. Paralelamente, o cenário global de incertezas geopolíticas e o aumento da dívida pública em diversos países reforçam a importância dos chamados ativos reais como componentes estratégicos em carteiras de investimento diversificadas.

O Elo entre IA e Ativos Reais

O relatório do UBS sugere que estratégias focadas em commodities, quando geridas ativamente, podem se adaptar às dinâmicas de mercado em constante mudança. A liderança entre diferentes setores, como metais industriais, energia, agricultura e metais preciosos, tende a alternar. O ouro, por exemplo, mantém um papel de diversificação, embora posições excessivas possam ser reconsideradas. Em termos relativos, o cobre emerge como uma commodity preferencial, sustentada pela demanda gerada pelos investimentos em redes elétricas, data centers e a eletrificação geral da economia. A prata, por outro lado, é vista como menos atrativa no contexto atual.

Para o Brasil, a questão energética assume um papel crucial. A expansão dos data centers, que já somam 169 unidades no país segundo dados recentes, depende intrinsecamente de um suprimento de eletricidade robusto e confiável. A capacidade de atender a essa demanda crescente será um fator determinante para a atração de investimentos e o desenvolvimento do setor de tecnologia no país.

Desafios Fiscais e Monetários no Brasil

No cenário brasileiro, o UBS direciona sua atenção principal para as contas públicas. A dívida bruta do governo atingiu 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB), totalizando R$ 10,95 trilhões, com um déficit nominal acumulado em 12 meses de 9,3% do PIB. Apesar de um avanço na arrecadação em julho, as despesas governamentais também registraram alta, pressionadas por gastos obrigatórios e um aumento significativo nas despesas discricionárias.

Esse quadro fiscal complexo tem implicações diretas na trajetória da taxa de juros. Embora o Comitê de Política Monetária (Copom) tenha reduzido a Selic, o Banco Central mantém uma postura cautelosa, citando riscos inflacionários, pressões sobre o câmbio e choques externos. A continuidade e a profundidade do ciclo de cortes na taxa básica de juros dependerão não apenas da desaceleração econômica, mas também da evolução das expectativas de inflação e da estabilidade fiscal e cambial.

A atividade econômica no Brasil já demonstra sinais de desaceleração, com o crescimento do PIB perdendo ritmo no segundo trimestre. O mercado de trabalho, contudo, tem se mostrado resiliente, com a taxa de desemprego em níveis historicamente baixos. No entanto, o UBS observa uma desaceleração no crescimento da renda e uma qualidade variável das novas vagas.

Perspectivas Internacionais e Locais

No âmbito externo, o quadro brasileiro apresenta alguns pontos positivos, como a queda no déficit em transações correntes e uma balança comercial favorável, impulsionada pelos preços elevados das commodities, especialmente o petróleo. Contudo, o déficit de serviços tem aumentado, influenciado por gastos em telecomunicações, serviços de computação e pagamentos de propriedade intelectual.

O cenário internacional, marcado por juros elevados e preços do petróleo acima de US$ 100 o barril, pode manter a inflação global sob pressão, limitando o espaço para um afrouxamento monetário mais rápido. Essa conjuntura internacional, somada às pressões internas, exige uma análise cuidadosa das implicações para a economia brasileira e seus setores produtivos, especialmente aqueles diretamente ligados à infraestrutura e às commodities.

Perguntas em Aberto

A capacidade do Brasil de capitalizar sobre o boom da IA, ao mesmo tempo em que gerencia seus desafios fiscais e a demanda por infraestrutura energética, permanece uma questão central. A adequação da infraestrutura existente e a velocidade de novos investimentos serão cruciais para determinar o quão bem o país poderá se beneficiar dessa nova onda tecnológica.

Ademais, a interação entre as políticas monetária e fiscal e sua influência na atratividade de ativos reais, como commodities e infraestrutura, exigirá monitoramento contínuo. A evolução desses fatores determinará a resiliência e o potencial de crescimento da economia brasileira em um cenário global complexo e em rápida transformação. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Startups