Julio Castro, o principal executivo da Iberdrola Renovables, delineou uma visão clara para o futuro energético europeu, defendendo um impulso decisivo em direção às energias renováveis. Em um evento organizado pela Deusto Business Alumni em Bilbao, Castro argumentou que o momento atual, marcado por instabilidades geopolíticas e volatilidade nos preços de combustíveis fósseis, é ideal para acelerar a transição para fontes de energia limpa. Segundo ele, as energias renováveis, como a solar e a eólica, não apenas resolvem a questão da sustentabilidade ambiental, mas também oferecem soluções concretas para a competitividade econômica e a segurança do abastecimento energético do continente.

O executivo ressaltou que a dependência de fontes de energia importadas, como petróleo e gás natural liquefeito, expõe a Europa a flutuações de preço e a riscos geopolíticos, exemplificados pela situação no Estreito de Ormuz. Essa vulnerabilidade, segundo Castro, exige uma resposta clara: aumentar a soberania e a independência energética. As energias renováveis, por serem intrinsecamente mais econômicas e abundantes em recursos locais, emergem como a resposta mais eficaz para mitigar esses riscos, garantindo preços mais estáveis e acessíveis para consumidores e indústrias.

O Dilema Nuclear: Competitividade vs. Carga Tributária

Em contrapartida à defesa das renováveis, Castro expressou preocupação com o futuro da energia nuclear na Espanha e na Europa. Ele observou que, embora a energia nuclear forneça uma base sólida para o sistema elétrico e contribua para a soberania energética, ela enfrenta um obstáculo significativo: a "asfixia tributária". Segundo o executivo, as instalações nucleares existentes e o potencial desenvolvimento de novas usinas estão sob a ameaça de sobrecustos fiscais que comprometem sua viabilidade econômica a longo prazo. Uma análise teórica da PricewaterhouseCoopers (PwC) sugere que a remoção instantânea da energia nuclear poderia elevar a fatura elétrica média em até 25%, devido à necessidade de substituição imediata por gás natural, cujos preços são voláteis.

Castro mencionou a recente decisão do governo espanhol de estender a vida útil da usina de Almaraz até 2030 como um exemplo da complexidade das decisões políticas no setor. Ele destacou que, embora a decisão final caiba aos governos, a soberania, a estabilidade da rede e a competitividade das tarifas estão intrinsecamente ligadas à escolha energética. Manter as usinas nucleares existentes operando a longo prazo, segundo ele, requer "algum tipo de solução tributária" para mitigar os "sobrecustos tributários" que as tornam menos competitivas.

Renováveis: O Motor da Nova Economia Energética

A aposta da Iberdrola em energias renováveis é clara, com foco especial na energia solar fotovoltaica e eólica. Castro reconheceu um "investimento fotovoltaico absolutamente brutal" que beira uma "burbuja", citando preocupações sobre a capacidade de armazenamento do sistema elétrico e a necessidade de "digerir" esse rápido crescimento. A União Fotovoltaica Espanhola (UNEF) também alertou para um potencial "resgate financeiro do setor", indicando uma "indigestão da fotovoltaica" que precisa ser tratada.

No entanto, o executivo reafirmou que a energia fotovoltaica "não morreu", dado que o sol é um recurso abundante na Europa. Ele sugere que o desenvolvimento futuro da fotovoltaica faz mais sentido quando vinculado ao autoconsumo industrial. A energia eólica, por sua vez, é destacada como uma fonte "autóctona" que promove soberania e representa uma "enorme oportunidade industrial". A Iberdrola também explora projetos hidrelétricos, embora a falta de concessões administrativas de longo prazo e de retribuição regulatória tenha limitado a expansão.

Desafios na Cadeia de Valor e Armazenamento

Um ponto crítico levantado por Castro é a ausência de produção de baterias de grande escala e painéis fotovoltaicos na União Europeia, uma lacuna que confere à China uma vantagem competitiva significativa. Ele sugere que decisões normativas, de investimento e fiscais podem ser necessárias para reverter essa situação e fortalecer a indústria europeia. Além disso, a Iberdrola está avançando em projetos de hidrogênio verde, com a próxima operação comercial da planta de 25 MW na refinaria da BP em Castellón.

Lições de Apagões e a Necessidade de Estabilidade

Castro também abordou o apagão de abril de 2025, atribuindo-o a um "fallo humano" na programação dos meios de geração, que resultou na falta de inércia e de elementos de controle de tensão necessários para a estabilidade da rede. Ele enfatizou que um sistema elétrico "cem por cem sintético", baseado apenas em corrente contínua convertida em onda senoidal artificial, não é sustentável. A necessidade de "máquina rotativa" e controle de tensão é crucial para a estabilidade, e a Iberdrola se diz tranquila, pois suas instalações funcionaram corretamente.

A análise de Castro aponta para um cenário energético complexo, onde a transição para renováveis é vista como inevitável e benéfica, mas onde a energia nuclear enfrenta desafios estruturais e fiscais. A Europa busca equilibrar a necessidade de fontes de energia confiáveis e acessíveis com os imperativos ambientais e de segurança, em um contexto global em constante mudança.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España