Durante décadas, o nome IDEO foi sinônimo de uma revolução silenciosa que transformou o cotidiano: a escova de dentes, o assistente digital Palm V e os programas de fidelidade bancária nasceram sob a égide do "design centrado no humano". A proposta era simples, mas radical para a época: colocar as necessidades do usuário acima das exigências técnicas ou financeiras. Hoje, porém, esse pilar parece ter se tornado um lugar-comum. Em um cenário onde a inteligência artificial promete democratizar a criatividade, a consultoria enfrenta o desafio de provar que ainda possui um diferencial competitivo capaz de justificar sua existência diante de um mercado que aprendeu a copiar seus métodos.
Sob a liderança de Mike Peng, que assumiu o comando após um período de cortes severos na força de trabalho e queda acentuada na receita, a IDEO tenta uma metamorfose. A estratégia agora é abandonar o modelo de prestação de serviços de design para atuar como uma escola de inovação. A lógica de Peng é clara: em vez de pescar pelo cliente, a empresa quer ensiná-lo a pescar. Essa transição reflete uma mudança estrutural no mercado, onde o design deixou de ser um serviço externo especializado para se tornar uma competência que muitas corporações buscam internalizar, muitas vezes sem a necessidade de consultorias externas.
O dilema da padronização pela IA
A grande preocupação de Peng não é que a IA substitua os designers, mas que ela produza uma homogeneização estética e funcional. Se todos os concorrentes utilizam as mesmas ferramentas de IA, o resultado final tende a convergir para uma média segura, porém sem brilho. A inovação, argumenta o CEO, exige encontrar uma vantagem competitiva que os modelos atuais ainda não conseguem replicar. Para ele, a capacidade de identificar esse "limite" — o diferencial que separa um produto comum de um memorável — continua sendo uma atividade profundamente humana, que exige sensibilidade e contexto que a tecnologia ainda não domina.
Essa visão encontra eco em dados recentes da própria firma. O "Innovation Quotient", levantamento realizado com centenas de executivos, revelou que, embora a maioria das empresas se declare centrada no cliente, poucas possuem autonomia real para experimentar ou testar ideias com eficácia. Existe um hiato entre o discurso de inovação e a prática organizacional. A IDEO busca preencher essa lacuna não mais entregando o produto final, mas ajudando a redesenhar as estruturas internas que permitem que a inovação aconteça de forma sustentável e recorrente.
A expansão para o mercado global
Enquanto se reestrutura internamente, a IDEO também olha para o leste. A experiência de Peng no Japão e sua observação sobre o ecossistema chinês revelam uma mudança importante no perfil dos clientes. Antes, o foco era ajudar multinacionais a se estabelecerem na Ásia. Agora, a demanda vem de empresas chinesas que buscam a internacionalização. Marcas de robótica doméstica e tecnologia de consumo estão tentando romper as barreiras culturais e de mercado no Ocidente, um desafio que exige mais do que apenas design de produto — exige uma compreensão profunda de novos comportamentos de consumo.
O caso japonês, contudo, serve como um alerta. Muitas empresas tentam replicar o modelo de laboratórios de inovação em centros como o Vale do Silício, mas frequentemente falham por falta de integração real com a sede. Peng sugere que o sucesso depende de modelos organizacionais mais complexos. A consultoria, portanto, atua como um tradutor cultural, ajudando essas empresas a navegar pela velocidade e pelas exigências de mercados globais, um papel que vai muito além da estética do produto.
O futuro da transformação organizacional
Olhando para o longo prazo, Peng projeta que o uso de IA para ganhos de eficiência é apenas a primeira fase. O verdadeiro desafio virá quando as empresas perceberem que precisam redesenhar suas estruturas organizacionais para acomodar essa nova realidade. Assim como a eletricidade levou décadas para mudar o layout das fábricas, a IA exigirá uma reconfiguração do trabalho humano. A questão que permanece em aberto é como a criatividade será alocada quando a eficiência operacional deixar de ser o principal gargalo.
O que restará da IDEO quando o design centrado no humano for, de fato, apenas a base de qualquer negócio? A resposta pode residir na capacidade da firma de se manter relevante como uma facilitadora de processos de transformação. Em um mundo onde a tecnologia promete ser onipresente e, consequentemente, invisível, a busca pelo que torna uma marca distinta será o novo campo de batalha. Resta saber se o mercado valorizará o ensino da inovação tanto quanto valorizava os objetos que a IDEO outrora criou para o mundo. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





