A Autoridade de Antiguidades do Iêmen formalizou a identificação de 28 artefatos históricos que teriam sido retirados ilegalmente do país e estariam atualmente sob posse do British Museum e de casas de leilão em Londres. Segundo reportagem da ARTnews, a denúncia integra o projeto "Our Looted Heritage", que busca rastrear e catalogar o patrimônio cultural iemenita disperso em coleções privadas e instituições públicas ao redor do mundo.

O levantamento aponta que oito destas peças foram colocadas à venda recentemente em casas de leilão como a Bonhams e a Apollo Art Auctions. As demais 20 peças estariam integradas ao acervo permanente do British Museum. O governo iemenita estima que mais de 13 mil antiguidades tenham sido contrabandeadas para fora do país desde 1994, com um agravamento acentuado durante a última década de conflitos armados na região.

O contexto histórico das coleções

A presença de artefatos da Arábia do Sul em museus britânicos remonta, em grande parte, ao período de administração colonial em Aden, entre o final do século XIX e o início do século XX. O British Museum detém uma vasta coleção que inclui esculturas de alabastro, estelas funerárias e lajes com inscrições antigas, muitas vezes adquiridas por figuras ligadas à presença militar e política britânica na região, como William Francis Prideaux.

A catalogação dessas peças frequentemente utiliza termos genéricos como "Sul da Arábia" ou "Arábia Antiga", o que, segundo especialistas, dificulta a identificação precisa da origem e a rastreabilidade legal dos objetos. A prática histórica de aquisição por meio de doadores e negociantes de antiguidades da época, como Henry Oppenheimer e Maurice Rosenheim, é agora questionada sob novas lentes éticas e jurídicas de repatriação.

Mecanismos de mercado e o desafio da proveniência

O mercado de arte em Londres enfrenta dificuldades crescentes para verificar a procedência de itens provenientes de zonas de conflito ou regiões com histórico de instabilidade política. Casas de leilão como a Bonhams, que incluiu cabeças de alabastro em seus catálogos recentes, operam sob a alegação de conformidade normativa, mas a identificação feita pelas autoridades iemenitas expõe a fragilidade dos protocolos atuais de diligência.

O uso de descrições vagas nos catálogos de vendas funciona como uma barreira para a transparência. Quando objetos são rotulados apenas como "antiguidades árabes", a responsabilidade de provar a origem legal recai quase inteiramente sobre o reclamante, criando um desequilíbrio de poder entre nações de origem e grandes instituições culturais que detêm recursos jurídicos para manter a posse dos itens.

Implicações para o patrimônio cultural

A pressão exercida pelo projeto "Our Looted Heritage" reflete uma tendência global de museus enfrentando demandas por repatriação. Para o Iêmen, a recuperação desses objetos não é apenas uma questão de propriedade, mas um esforço de preservação da identidade nacional em um momento de fragmentação interna. O embate coloca em xeque a legitimidade ética de coleções formadas durante o período colonial britânico.

Concorrentes e reguladores do mercado de arte observam o caso como um precedente. Se as alegações forem confirmadas e resultarem em repatriação, as casas de leilão poderão ser obrigadas a endurecer seus processos de curadoria e verificação, o que pode reduzir o volume de peças de origem duvidosa circulando no mercado internacional de antiguidades.

Perspectivas e o futuro dos acervos

O British Museum ainda não se manifestou publicamente sobre os itens específicos apontados pelas autoridades iemenitas. A ausência de resposta oficial mantém em aberto o futuro das peças e a possibilidade de negociações diplomáticas para a devolução do material, um processo que costuma ser longo e complexo na esfera internacional.

A eficácia das listas publicadas periodicamente pelo governo iemenita, que já somam 34 edições, será testada à medida que a pressão por transparência aumentar. O que resta saber é se as instituições londrinas adotarão uma postura colaborativa ou se manterão a defesa legal da posse atual dos artefatos. Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews