A Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado Federal projetou um cenário econômico adverso para o próximo mandato presidencial, com o estouro da meta de inflação em 2026. Segundo o Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) de junho, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve atingir 5% naquele ano, superando a meta de 4,5%. A divulgação coincide com o alerta do Banco Central, que elevou para 79% a probabilidade de rompimento do teto da meta ainda neste exercício.

O documento desenha um quadro estruturalmente complexo, caracterizado por déficits primários recorrentes e uma trajetória ascendente da dívida pública. Para os diretores Marcus Pestana e Alexandre Andrade, a situação fiscal exige atenção imediata, dado que a estrutura atual de gastos e receitas aponta para uma trajetória que pode se tornar insustentável no médio prazo.

O desafio da convergência inflacionária

A projeção da IFI sugere que, após o pico de 5% em 2026, a inflação iniciaria um processo de convergência, atingindo 4% em 2027 e 3,5% em 2028, até se estabilizar em 3% nos anos subsequentes. No entanto, esse retorno ao centro da meta não ocorre sem custos. A persistência de pressões inflacionárias mantém os juros reais em patamares elevados, com a taxa Selic estimada em 14% ao final de 2026.

Esse cenário de juros altos reflete não apenas o choque externo de preços do petróleo, mas também a necessidade de ancoragem das expectativas em um ambiente de incerteza fiscal. A dinâmica dos juros, ao impactar o custo do serviço da dívida, cria um círculo vicioso que dificulta a gestão da política monetária e a estabilização econômica no longo prazo.

Mecânicas de deterioração fiscal

O relatório detalha o descompasso entre a evolução das receitas e das despesas primárias. A IFI projeta que a elasticidade receita-PIB, atualmente em 1,4, caia para 1,0, indicando uma perda de eficiência na arrecadação em relação ao crescimento do produto. Paralelamente, as despesas primárias devem subir de 19,2% do PIB em 2026 para 19,9% em 2032.

Essa combinação resulta em déficits primários persistentes, uma tendência observada desde 2014. Para reverter esse quadro e estabilizar a relação dívida/PIB, a IFI calcula que seria necessário um superávit primário de 2,1% do PIB anualmente. Sem essa correção, a dívida bruta do setor público, que estava em 80,1% em abril de 2026, saltaria para 102% em 2032 e 115% em 2036.

Impactos para o próximo ciclo político

As implicações dessas projeções transcendem a técnica econômica e alcançam o debate político das eleições de 2026. O próximo governo herdará um espaço fiscal exíguo, onde a rigidez das despesas obrigatórias limita a capacidade de investimento público. A implementação da Reforma Tributária sobre o consumo é citada como um fator de produtividade, mas seus efeitos sobre a saúde financeira de estados e municípios seguem como um ponto de vigilância.

Para os agentes econômicos e reguladores, a mensagem é de cautela. A IFI sublinha que o desenho da trajetória fiscal, embora tenha apresentado melhorias marginais em relação a projeções anteriores, ainda não é suficiente para garantir a solvência a longo prazo. O cenário exige que os futuros gestores enfrentem o dilema entre a manutenção de políticas sociais e o equilíbrio das contas públicas.

Incertezas e volatilidade conjuntural

Apesar das projeções, a própria IFI reconhece que a volatilidade conjuntural impede previsões determinísticas. A construção de cenários alternativos, tanto otimistas quanto pessimistas, é fundamental para compreender a sensibilidade da dívida a choques externos ou mudanças na produtividade nacional. O que permanece incerto é a capacidade do sistema político de implementar as reformas estruturais necessárias para alterar a trajetória de crescimento do endividamento.

O debate sobre o equilíbrio fiscal não é apenas uma questão contábil, mas um pilar para a estabilidade democrática e o crescimento sustentável. A contribuição da IFI, ao fornecer uma base técnica e apartidária, coloca sobre a mesa as variáveis que, inevitavelmente, ditarão os limites da atuação do próximo governo. Resta saber como o ecossistema político absorverá essas projeções na construção de suas agendas para os próximos anos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times