O Índice Geral de Preços-10 (IGP-10) registrou alta de 0,89% em maio, um resultado que surpreendeu positivamente o mercado ao ficar abaixo da expectativa de 1,11% projetada em pesquisa da Reuters. O indicador, divulgado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), mostra uma desaceleração significativa em relação ao mês anterior, quando o índice havia avançado 2,94%.

Com esse desempenho, o acumulado em 12 meses do IGP-10 atinge 1,46%. O movimento reflete, sobretudo, uma mudança na dinâmica de preços no atacado, que responde pela maior parte do cálculo do índice geral e que, em maio, apresentou uma moderação mais acentuada do que o previsto por analistas econômicos.

O peso do atacado no índice

O Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA-10), componente que detém 60% de peso na composição do IGP-10, foi o principal responsável pela leitura de maio. Após uma alta expressiva de 3,81% em abril, o IPA-10 subiu apenas 0,95% no período. Essa desaceleração foi ancorada, em grande medida, pelo comportamento das matérias-primas brutas, que registraram uma variação de apenas 0,06%.

Historicamente, o IGP-10 é sensível a variações de commodities, dado que o IPA-10 captura os preços na porta da fábrica e no campo. A forte influência de itens voláteis, como minério de ferro e produtos agrícolas, faz com que o índice apresente oscilações mais bruscas do que o IPCA, o índice oficial de inflação ao consumidor.

Dinâmicas de mercado e commodities

O recuo de 4,67% no preço do minério de ferro foi o fator determinante para a contenção do índice, segundo o economista Matheus Dias, do FGV IBRE. Além do minério, outros itens tiveram quedas expressivas, como álcool etílico anidro, cana-de-açúcar, café em grão e suínos. Essas quedas compensaram pressões altistas que ainda persistem em outros segmentos agropecuários e industriais.

O mecanismo de transmissão desses preços é direto: quando commodities essenciais perdem valor no atacado, a pressão sobre os custos de produção diminui, o que teoricamente reduz o repasse de preços para o consumidor final, embora esse efeito não seja imediato nem linear em toda a cadeia produtiva.

Impactos na política monetária

Para o mercado, a leitura do IGP-10 é um dado importante, mas que precisa ser lido em conjunto com outras métricas. Enquanto o IPC-10, que mede a inflação ao consumidor, subiu 0,68% em maio, o INCC-10, que acompanha o custo da construção civil, avançou 0,86%. A divergência entre esses componentes revela que a inflação não é uniforme.

O cenário de inflação e a trajetória da taxa Selic continuam sendo o foco principal. Com as projeções recentes do Boletim Focus indicando uma possível alta na Selic, qualquer sinal de alívio nos preços ao produtor é monitorado de perto pelo Banco Central e por investidores que buscam entender o limite da política monetária restritiva para conter a inflação de longo prazo.

Perspectivas e incertezas

Embora o dado de maio traga um alívio pontual, a volatilidade das commodities globais permanece como uma variável de risco. A capacidade de sustentação dessa desaceleração dependerá da demanda externa por minério e da estabilidade da safra agrícola, que ainda exerce forte pressão sobre os custos domésticos.

O mercado agora observa se esse movimento de descompressão no atacado será suficiente para ancorar as expectativas para os próximos meses ou se novos choques de oferta podem reverter a tendência observada em maio.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney