Os impactos do fenômeno climático El Niño sobre a inflação de alimentos no Brasil devem se manifestar de forma mais expressiva apenas em 2027. A avaliação foi apresentada por Cesar de Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA, durante a 12ª edição do evento Agro em Pauta, realizado nesta quinta-feira (2). Segundo o executivo, o cenário atual não apresenta evidências de um efeito disseminado que pressione os preços dos alimentos ao consumidor final de forma imediata.

A análise do banco destaca que, embora a preocupação climática seja real, a transmissão desses efeitos para a inflação oficial ocorre com defasagem. O repasse de custos, quando acontece, tende a ser indireto, afetando principalmente a cadeia de proteínas animais através do encarecimento dos insumos para ração. Enquanto o consumidor não deve sentir um aumento generalizado nos preços de curto prazo, o monitoramento técnico permanece focado em cadeias produtivas específicas.

Vulnerabilidades nas cadeias produtivas

O Itaú BBA identifica três frentes principais de exposição ao fenômeno climático. A cana-de-açúcar surge como o primeiro ponto de atenção, visto que chuvas fora de época podem comprometer a janela de colheita e a eficiência das usinas. O café, por sua vez, é apontado como uma das maiores preocupações estruturais, dado o risco elevado de desorganização nas floradas entre os meses de setembro e novembro.

O milho completa o grupo de maior risco, com a safrinha de 2027 sob observação caso o El Niño ganhe intensidade durante o período crítico de desenvolvimento da lavoura. Além disso, o setor de leite pode sofrer impactos indiretos em decorrência do excesso de chuvas na região Sul, que funciona como uma bacia produtora estratégica para o país. Embora as hortaliças apresentem maior sensibilidade a oscilações climáticas no curtíssimo prazo, o banco descarta, por ora, um choque inflacionário amplo.

Mecanismos de transmissão de preços

A dinâmica de preços no agronegócio brasileiro é multicausal, e o papel do clima atua como um catalisador de volatilidade. O mecanismo de repasse ocorre, via de regra, pela oferta de grãos, que compõem a base de custos da pecuária. Se o milho tem sua produtividade reduzida por eventos climáticos extremos, o custo da ração sobe, pressionando os preços das carnes bovina, suína e de aves. Esse efeito cascata é o que justifica a cautela dos analistas quanto ao horizonte de 2027.

A magnitude desses efeitos, no entanto, permanece atrelada à intensidade do fenômeno. O Itaú BBA pontua que um aquecimento igual ou superior a dois graus costuma provocar complicações mais severas para a produção agrícola. Contudo, a incerteza inerente aos modelos meteorológicos impede, neste momento, uma estimativa precisa sobre o impacto final no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Implicações para o mercado e stakeholders

Para o setor de varejo e para os formuladores de política monetária, o cenário sugere um período de observação atenta, mas sem a necessidade de revisão imediata de expectativas inflacionárias. A resiliência das cadeias de suprimentos brasileiras tem demonstrado capacidade de absorção de choques pontuais, ainda que a dependência climática continue sendo o principal fator de risco para a estabilidade dos preços dos alimentos.

Competidores e players do setor de insumos devem ajustar suas estratégias de hedge e gestão de estoques considerando a possibilidade de uma entressafra mais complexa em 2027. A coordenação entre produtores e a indústria de processamento será determinante para mitigar eventuais rupturas no abastecimento, especialmente em culturas perenes que possuem ciclos de recuperação mais longos.

Perspectivas e incertezas futuras

O que permanece em aberto é a capacidade de adaptação do setor agropecuário diante de um clima cada vez mais errático. A evolução tecnológica no campo tem mitigado perdas históricas, mas a intensidade dos fenômenos extremos coloca à prova a eficiência das políticas de seguro rural e de manejo de solo adotadas pelas grandes cooperativas e produtores independentes.

O mercado deve observar, nos próximos meses, a evolução das temperaturas nos oceanos e o comportamento das chuvas nas regiões produtoras. Qualquer desvio significativo nos padrões esperados poderá alterar a projeção de normalidade para 2026, antecipando pressões que, até o momento, parecem contidas.

A complexidade da equação entre clima e inflação exige que o acompanhamento seja constante, evitando conclusões precipitadas antes que os ciclos de safra se consolidem. A resiliência do setor será testada pela sua habilidade de antecipar riscos operacionais em um ambiente de incerteza climática crescente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times