O segundo trimestre de 2026 avança para as instituições financeiras brasileiras com o setor ainda sob a pesada sombra da inadimplência. Segundo relatórios recentes do JPMorgan e do UBS BB, a qualidade dos ativos tornou-se o tema central das discussões na atual temporada de balanços, com os bancos enfrentando um cenário de endividamento elevado das famílias e juros persistentes.

Embora o Brasil apresente hoje a dinâmica de crédito mais desafiadora entre os principais mercados da América Latina, a análise aponta uma divergência clara. Enquanto grandes bancos incumbentes mantêm uma trajetória de resiliência, instituições digitais e novos entrantes sofrem com pressões mais agudas em seus balanços e indicadores de risco.

O peso da inadimplência no cenário atual

O diagnóstico das instituições financeiras é unânime quanto à pressão sobre o custo de risco. Dados do Banco Central indicam uma deterioração contínua nas métricas recentes de inadimplência, afetando especialmente linhas de varejo como consignado privado e empréstimos pessoais. O UBS BB destaca que o volume de consumidores negativados alcançou a marca de 83,5 milhões, enquanto o comprometimento da renda familiar permanece em patamares historicamente altos, próximos de 30%.

Esse ambiente macroeconômico força um escrutínio rigoroso sobre a formação de novos créditos problemáticos e os volumes de baixas contábeis. Diferente de vizinhos como México, Peru e Colômbia, onde os indicadores de inadimplência estão relativamente controlados, o sistema bancário brasileiro lida com uma carga de risco que exige gestão de capital mais conservadora para evitar impactos severos na rentabilidade trimestral.

Diferenciação entre incumbentes e digitais

A resiliência dos grandes bancos privados é um dos pilares da tese de investimento das corretoras. Instituições como o Itaú, por exemplo, são vistas como mais capacitadas para navegar o ciclo, apresentando deterioração de inadimplência inferior à média do setor. O JPMorgan projeta para o Itaú um ROE ao redor de 25% no período atual, sustentado por um controle de custos e qualidade de crédito superior.

Por outro lado, o segmento de bancos digitais enfrenta um teste de estresse contínuo. O UBS BB aponta que o Inter, por exemplo, apresentou deterioração em diversos indicadores de qualidade no primeiro trimestre, embora analistas acreditem que o preço atual da ação já contemple parte desse cenário negativo. O Nubank, contudo, aparece como uma exceção otimista em ambos os relatórios, sendo visto como um possível beneficiário de programas de renegociação de dívidas que podem aliviar as margens ajustadas ao risco.

O papel do mercado de capitais

Em momentos de incerteza sobre o crédito, o mercado de capitais surge como um refúgio defensivo para investidores. O JPMorgan reforça a preferência por XP e BTG Pactual, argumentando que, embora a atividade de emissões de dívida e ações permaneça contida, essas instituições estão menos expostas aos riscos diretos de inadimplência que corroem as margens dos bancos de varejo tradicional.

A XP, em particular, é destacada como a principal escolha para o momento, com a expectativa de ganho de participação de mercado à medida que o ciclo de juros favoreça a migração para investimentos. O BTG Pactual, apesar de uma visão mais cautelosa por parte do UBS BB, mantém patamares de rentabilidade que o tornam peça fundamental na análise de exposição ao setor financeiro brasileiro.

Perspectivas e incertezas futuras

O que permanece em aberto é a velocidade com que o mercado de crédito irá estabilizar diante das atuais condições macroeconômicas. A eficácia de programas de renegociação, como o Desenrola e similares, será o termômetro para medir o alívio nas carteiras focadas em perfis de baixa e média renda.

Investidores devem observar de perto não apenas os números finais de lucro, mas a composição da inadimplência por segmento. A capacidade das instituições em gerir o custo de risco sem sacrificar a expansão da carteira definirá, nos próximos trimestres, quem consolidará sua posição no mercado e quem precisará ajustar seu modelo de negócio.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney