Cinco filhotes de orangotango, com cerca de 6 a 8 meses de idade, foram encontrados em uma floresta em Odisha, na Índia, a mais de 2.700 quilômetros de seus habitats naturais em Bornéu e Sumatra. Este incidente, ocorrido em setembro, é um reflexo do aumento do comércio ilícito de primatas para a Índia, um país que tem se consolidado como um mercado importante para o tráfico de animais exóticos. Os animais, agora sob os cuidados de um zoológico indiano, enfrentam um futuro incerto em um país cujas leis de proteção à vida selvagem foram historicamente focadas em espécies nativas, deixando lacunas significativas no controle de animais importados.
A situação dos orangotangos em Odisha é apenas um sintoma de um problema maior: a Índia se tornou um destino de ponta para o comércio ilegal de primatas vivos, segundo especialistas. O tráfico global de vida selvagem, estimado em US$ 34 bilhões anualmente, movimenta espécies raras e exóticas que são vendidas a colecionadores ricos na Índia, que as veem como símbolos de status. A expansão das rotas aéreas de e para o Sudeste Asiático, um hub regional para o comércio de espécies, acelera a chegada desses animais ao país, tornando o transporte mais rápido, embora mais arriscado. As margens de lucro são tão elevadas que os traficantes conseguem compensar as perdas eventuais de animais e ainda assim obter lucro.
Brechas legais e a demanda por exóticos
As leis indianas de vida selvagem, embora tenham sido endurecidas em 2022 com poderes ampliados para apreensão e processamento de traficantes, ainda apresentam falhas. Uma permissão concedida em 2020 permitiu que proprietários registrassem seus animais exóticos sem a necessidade de comprovar a origem, abrindo portas para que animais traficados sejam legalizados. A falta de pessoal e expertise para inspecionar adequadamente as coleções privadas dificulta a identificação de espécies importadas ilegalmente. Pesquisadores apontam que o comércio de animais exóticos na Índia se encontra na intersecção entre a perda de biodiversidade, a demanda desenfreada e a atividade criminosa organizada. O governo indiano não respondeu aos pedidos de comentário sobre o tema.
O caso do orangotango Tapanuli e o centro Vantara
Um dos casos mais controversos envolve o Vantara, um centro de resgate e reabilitação de animais de 1.400 hectares, administrado pela família do bilionário Mukesh Ambani. O centro abriga mais de 150.000 animais de mais de 2.000 espécies e já enfrentou escrutínio internacional por suas aquisições. Em novembro de 2025, a CITES questionou remessas para Vantara que incluíam leopardos-das-neves da Alemanha, um bonobo supostamente criado no Iraque e um gorila reportado como vindo do Haiti. O centro foi absolvido de alegações de tráfico e maus-tratos em 2025 pelo Supremo Tribunal da Índia. No entanto, em setembro, 27 organizações de conservação e bem-estar animal pediram o fim das importações de animais selvagens para o Vantara, citando a aquisição de mais de 60.000 animais em um curto período. Entre as aquisições controversas está um orangotango Tapanuli, a espécie de grande primata mais rara do mundo, com apenas 716 indivíduos remanescentes na natureza. A presença deste animal em cativeiro fora da Indonésia levanta sérias questões legais e éticas.
Implicações para a conservação e o comércio internacional
A transferência de animais exóticos, especialmente espécies criticamente ameaçadas como o orangotango Tapanuli, para instalações privadas levanta preocupações significativas sobre a conservação e a integridade do comércio internacional de vida selvagem. A CITES, tratado global que regula o comércio de espécies ameaçadas, tem dados que indicam que o Tapanuli em questão deixou a Indonésia em 2024 e chegou à Índia via Emirados Árabes Unidos, uma rota que, segundo especialistas, não seria legal. A Indonésia tem buscado ativamente repatriar os cinco filhotes de orangotango encontrados em Odisha, enviando especialistas para verificar suas origens e avaliar sua saúde. Embora a repatriação de orangotangos da Tailândia tenha sido bem-sucedida, apenas um foi devolvido à Indonésia vindo da Índia até o momento. A falta de transparência e a possível corrupção em torno de importações legais e ilegais complicam os esforços de conservação e a aplicação de tratados internacionais.
Perguntas em aberto e o futuro do tráfico de primatas
O futuro do comércio ilegal de primatas na Índia permanece incerto, com a demanda por animais exóticos por parte de colecionadores ricos ainda forte. A capacidade das autoridades indianas de fiscalizar e controlar a importação e o registro de animais exóticos é questionável, dada a escassez de recursos e expertise. A questão sobre a legalidade da posse de espécies raras como o orangotango Tapanuli em instalações privadas como Vantara, e as implicações para os esforços de conservação na Indonésia, ainda precisam ser totalmente esclarecidas. A cooperação internacional e o fortalecimento das leis de vida selvagem serão cruciais para combater essa rota de tráfico emergente.
A repatriação de animais traficados é um processo complexo e demorado, frequentemente ofuscado pela dificuldade em rastrear a origem e a legalidade de cada espécime. A situação na Índia, com sua crescente popularidade como destino de vida selvagem exótica, exige atenção contínua de conservacionistas e autoridades globais para garantir a proteção de espécies ameaçadas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune




