O Brasil ocupa hoje a posição de terceiro maior produtor mundial de denim, com uma fabricação anual estimada em 280 milhões de peças. Contudo, essa relevância global contrasta com o impacto ambiental da cadeia produtiva, que consome entre 3 mil e 10 mil litros de água por unidade, além de utilizar corantes sintéticos e metais pesados. A indústria brasileira busca agora alternativas para mitigar esses danos, apostando em inovações que vão desde o uso de laser para acabamento até a introdução de elastano derivado da cana-de-açúcar.
Segundo reportagem do Reset, o movimento de transição ainda enfrenta desafios estruturais severos. A adoção de novas tecnologias, embora promissora, esbarra na baixa escala de produção e no custo elevado dos insumos, obrigando empresas a absorverem margens para manter a competitividade nas prateleiras.
O dilema da matéria-prima e o custo da inovação
A busca por um jeans mais sustentável passa necessariamente pela substituição de insumos derivados de petróleo. A Riachuelo, por exemplo, introduziu recentemente peças utilizando elastano de biomassa vegetal, fornecido pela sul-coreana Hyosung TNC. O material, batizado de regenBIO, promete reduções significativas na pegada de carbono e no consumo de água. Entretanto, o custo dessa matéria-prima é substancialmente superior ao elastano convencional, o que pressiona a estrutura de preços das grandes varejistas.
O impasse reside na disparidade entre o valor da inovação e o comportamento de consumo do brasileiro. Executivos do setor admitem que, embora a sustentabilidade gere empatia e auxilie na reputação das marcas, o fator decisivo no momento da compra continua sendo o preço final. Essa realidade impõe uma barreira de entrada para produtos sustentáveis, que muitas vezes não conseguem competir em paridade com as opções tradicionais de baixo custo, especialmente em um mercado pressionado pela concorrência internacional.
Tecnologias de beneficiamento como padrão operacional
Enquanto a mudança na fibra é um desafio de longo prazo, as tecnologias de beneficiamento, como o uso de laser e ozônio, já encontram maior maturidade na indústria nacional. A Damyller, marca catarinense que se posiciona no segmento premium, utiliza essas soluções há quase duas décadas para reduzir o impacto químico e hídrico no processo de lavagem e envelhecimento das peças. A eficiência operacional desses sistemas evoluiu drasticamente, permitindo ganhos de tempo e economia de recursos que tornam a prática mais atraente para grandes players como C&A e Renner.
O uso de ozônio, que substitui o processo de lavagem com pedras, demonstra como a eficiência ambiental pode caminhar junto com a produtividade. Ao extrair oxigênio da atmosfera para realizar a abrasão das fibras, as empresas conseguem reduzir o consumo de água em até 96% e o uso de químicos em mais de 60%. Essas inovações, contudo, ainda não são suficientes para tornar a totalidade da produção sustentável, servindo mais como um diferencial de eficiência do que como uma mudança sistêmica completa.
Tensões entre escala e sustentabilidade
A fragmentação da oferta de insumos sustentáveis limita a capacidade de empresas brasileiras de escalarem coleções ecologicamente responsáveis. A Riachuelo, ao lançar uma linha com elastano de cana, produziu apenas 10 mil peças, o que representa uma parcela ínfima dentro de sua operação global. A estratégia de começar pequeno, conforme apontam lideranças do setor, é uma tentativa de fomentar a cadeia de suprimentos e educar os times internos, mas o caminho para a representatividade parece longo.
O cenário é agravado pela dinâmica da concorrência global. Com a pressão sobre as margens e a sensibilidade do consumidor, as varejistas nacionais precisam equilibrar a meta de sustentabilidade com a viabilidade financeira. A ausência de uma escala robusta para fibras recicladas ou bio-baseadas mantém o custo proibitivo para o mercado de massa, deixando o jeans sustentável, por ora, restrito a nichos ou coleções limitadas.
O futuro da produção de denim nacional
Permanece em aberto a questão de como o setor conseguirá transpor a barreira dos 1% ou 2% de participação de mercado que as linhas sustentáveis ocupam atualmente. A rastreabilidade, via QR codes, surge como uma ferramenta para agregar valor e confiança, mas sua eficácia depende da demanda do consumidor por transparência.
O mercado observará se a pressão por regulamentações ambientais mais rígidas ou a mudança no comportamento de consumo serão suficientes para forçar uma virada de chave. Até lá, a indústria segue em uma busca constante por equilibrar a democratização do jeans com a urgência da agenda climática.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Capital Reset





