A indústria espanhola, um pilar econômico que responde por 24% das emissões brutas do país, enfrenta um momento crítico que exige um aumento significativo nos investimentos para sua descarbonização. Segundo um relatório conjunto da Fedea e Deloitte, a adaptação dos instrumentos públicos à realidade econômica e tecnológica de cada setor industrial é fundamental para alcançar as metas climáticas.

O estudo surge em um contexto de políticas industriais ambiciosas na União Europeia, que estabeleceu o objetivo vinculante de reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa em 90% até 2040, em comparação com os níveis de 1990. Adicionalmente, o Mecanismo de Ajuste na Fronteira por Carbono (CBAM) já está em vigor desde janeiro de 2026, e a Comissão Europeia propôs uma Lei de Aceleração Industrial para estimular investimentos e agilizar licenciamentos.

Contexto e Metas de Redução

A análise detalha que a Espanha necessita reduzir as emissões de combustão industrial em 8,9 milhões de toneladas de CO2 entre 2024 e 2030. Isso representa um corte adicional de 21% em relação à trajetória prevista no Plano Nacional Integrado de Energia e Clima (PNIEC), que orienta a política energética e climática espanhola até o fim da década. A transição, contudo, deve ser conduzida de forma a não comprometer a competitividade do setor. Cerca de 58% das atividades industriais espanholas possuem alta abertura comercial, com importações representando 29% da demanda nacional e exportações respondendo por mais de 35% das vendas. Essa exposição internacional limita a capacidade de repassar custos adicionais de produção mais limpa para os preços finais, embora o Regime de Comércio de Direitos de Emissão da UE já crie incentivos para a redução de emissões.

Desafios Setoriais e Competitividade

O relatório enfatiza que as necessidades e os desafios da descarbonização variam consideravelmente entre os diferentes setores industriais. Em atividades de baixa temperatura, como a indústria alimentícia, melhorias em eficiência energética e a eletrificação de processos podem gerar economias que viabilizam o retorno do investimento. Em contrapartida, setores de alta temperatura e com emissões difíceis de evitar, como a siderurgia, a produção de cimento e a fabricação de amoníaco, enfrentam investimentos iniciais extremamente elevados e o risco de sobrecustos operacionais persistentes. Essa disparidade exige abordagens políticas diferenciadas, que considerem a viabilidade econômica e tecnológica de cada segmento.

Adaptação de Políticas Públicas

Ana Aguilar, economista-chefe da Deloitte, ressalta que a Espanha se encontra em uma etapa decisiva para assegurar uma indústria competitiva e com um nível de descarbonização avançado. Para atingir esse objetivo, é crucial acelerar investimentos, fomentar a inovação e, especialmente, adaptar os instrumentos de apoio público. A política de apoio à descarbonização industrial deve ser flexível, variando desde medidas horizontais e financiamento para investimentos com retorno garantido até subsídios direcionados para cobrir lacunas de investimento e custos operacionais, especialmente em cenários onde as condições de mercado não permitem a recuperação integral desses custos.

Implicações e Próximos Passos

A necessidade de intensificar investimentos e adaptar políticas públicas para a descarbonização industrial na Espanha levanta questões importantes sobre a capacidade do país de equilibrar metas climáticas ambiciosas com a manutenção da competitividade de seu setor produtivo. A União Europeia, através de mecanismos como o CBAM e a proposta de Lei de Aceleração Industrial, busca criar um ambiente favorável à transição, mas a implementação efetiva depende da resposta e da capacidade de adaptação das indústrias nacionais. A forma como os diferentes setores conseguirão mitigar seus custos adicionais e quais instrumentos de apoio público serão mais eficazes para cobrir as lacunas de investimento e operacionais em atividades de alta temperatura definirá o sucesso da jornada espanhola rumo a uma indústria mais sustentável.

O caminho para uma indústria espanhola descarbonizada e competitiva exigirá um esforço coordenado entre o setor público e o privado. A análise da Fedea e Deloitte serve como um alerta sobre a urgência e a complexidade da tarefa, indicando que a mera intenção de reduzir emissões não será suficiente sem um compromisso robusto com investimentos e políticas públicas alinhadas às realidades de cada setor. O monitoramento contínuo da competitividade e da capacidade de adaptação das empresas será essencial nos próximos anos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España