Há exatas três décadas, em julho de 1996, a AT&T tomava uma decisão que ajudaria a definir o cenário da internet pela década seguinte: escolheu o Internet Explorer 3 como navegador padrão para seu recém-lançado serviço WorldNet. Na época, a gigante de telecomunicações buscava competir com os provedores dominantes como CompuServe e America Online, e precisava de um browser para seus clientes.
Embora o Netscape Navigator fosse o líder indiscutível de mercado, a Microsoft estava determinada a reverter o jogo. Segundo reportagem do The Register, o acordo selou a inclusão do software da AT&T diretamente nas cópias do Windows 95, com o IE pré-selecionado. A manobra não era sobre ter o melhor produto, mas sobre ter a melhor distribuição. Foi uma demonstração seminal do poder estratégico de ser a opção padrão.
O poder do padrão
A escolha da AT&T, segundo um dos executivos da época, resumiu-se ao preço. Enquanto o Netscape exigia pagamento por cópia ativada, a Microsoft praticamente ofereceu seu navegador de graça, apostando que a integração com o Windows e a distribuição massiva via parceiros como a AT&T compensariam. A estratégia era clara: usar a dominância no sistema operacional para conquistar mercados adjacentes.
O momento também foi crucial. A internet começava a migrar dos "jardins murados" de serviços como a AOL para a web aberta que conhecemos hoje. O WorldNet oferecia justamente esse acesso direto, e ao colocar o Internet Explorer como porta de entrada para uma base de usuários em rápido crescimento, a Microsoft capturou um público no ponto exato de inflexão do mercado. O Netscape ainda estava disponível como opção, mas a fricção de ter que buscar uma alternativa foi suficiente para selar seu destino.
O legado de uma guerra
As consequências foram imediatas. O uso corporativo do Internet Explorer triplicou em poucos meses, enquanto a fatia de mercado do Netscape começou a erodir. A estratégia de "bundling" — empacotar o navegador com o sistema operacional — tornou-se o centro de uma das mais famosas batalhas antitruste da história da tecnologia, com processos movidos contra a Microsoft nos Estados Unidos e na Europa.
Décadas depois, o legado dessa disputa ainda é visível, como na tela de escolha de navegador imposta pela União Europeia em 2010. A tática de alavancar uma plataforma para dominar outra se tornou um manual para o setor. As batalhas atuais pelo status de mecanismo de busca padrão em sistemas móveis ou pela proeminência em lojas de aplicativos são ecos diretos daquela guerra travada em 1996.
Os nomes mudaram — Netscape e Internet Explorer são hoje peças de museu digital, suplantados por Chrome, Safari e outros. Contudo, o princípio estratégico permanece intacto. A disputa pela internet é, muitas vezes, vencida não pela superioridade técnica, mas pelo controle dos canais de distribuição e pela conquista da posição de padrão. O acordo entre AT&T e Microsoft foi um dos primeiros e mais claros capítulos dessa história.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Register





