O investimento climático global, que alcançou cerca de US$ 2,1 trilhões no ano passado, mostra sinais de desaceleração. Após um pico de crescimento de 30% em 2021, a expansão diminuiu para aproximadamente 2,5%, um ritmo insuficiente para atingir a meta de US$ 7,8 trilhões anuais necessários até 2030. Essa retração, combinada com restrições fiscais em países desenvolvidos que limitam o capital público, cria um cenário de escassez de recursos para a transição ecológica.
O Cenário Global e a Busca por Capital
O volume investido em clima no ano passado, embora expressivo e comparável aos gastos globais com defesa e inteligência artificial, não acompanha a urgência e a escala dos desafios. A desaceleração do crescimento percentual indica uma mudança no fluxo de capital, com maior pressão sobre fontes privadas. A busca por mobilização de capital privado, especialmente o doméstico – que já responde por 85% do investimento global –, torna-se crucial. Nesse contexto, países emergentes com mercados de capitais robustos e poupança interna ganham destaque como potenciais receptores de investimentos.
Brasil: Maturidade Energética e Potencial em Uso da Terra
O Brasil se encontra em uma posição privilegiada para atrair esses investimentos. A maturidade de sua matriz elétrica, onde 92% da capacidade adicionada em 2024 foi renovável, com quase 90% da matriz já limpa, a torna um mercado financeiramente atraente para capital comercial. A inovação se concentra em eficiência e escala, áreas onde modelos de negócio já são sustentáveis. Além disso, o país possui um vasto potencial em agricultura, florestas e uso da terra, com capacidade de mitigação de 8 bilhões de toneladas de CO2 equivalente até 2030. Este setor, que ainda depende majoritariamente de fontes públicas, apresenta uma lacuna de financiamento colossal e um dos maiores potenciais de crescimento para capital privado.
Inovação e Mecanismos de Financiamento
A tecnologia desempenha um papel fundamental na redução de incertezas e na atração de investimentos. Iniciativas como a Agrorobótica, que utiliza laser e IA para análise de solo, e a Traive, que avalia risco de crédito agrícola, conectam produtores ao mercado de capitais, tornando o setor rural mais financiável. Para lidar com o desafio de recuperar áreas degradadas e frear o desmatamento, a criação de mecanismos que permitam o investimento tradicional sem alterar seus níveis de risco é essencial. Estruturas de investimento em cotas subordinadas, onde o capital tradicional entra nas cotas seniores, oferecem um modelo promissor para atrair esse tipo de capital.
Próximos Passos para o Brasil
Com o fim do ciclo eleitoral, a questão muda de "se" o Brasil tem condições para atrair capital para "como" transformar essas condições em fluxo financeiro. Em um cenário de ajuste fiscal, medidas de baixo custo podem impulsionar essa transição. A previsibilidade do programa Eco Invest Brasil, com calendário regular de leilões e linhas dedicadas ao uso da terra para financiar cotas subordinadas, é um passo importante. Abrir espaço para fundos de pensão e seguradoras nas cotas seniores, revendo regras de alocação, e padronizar estruturas de investimento para evitar que cada operação seja desenhada do zero, são outras medidas cruciais para consolidar o Brasil como um hub de investimento climático.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





