A prévia da inflação oficial do Brasil, o IPCA-15, deve apresentar um ritmo mais contido em maio na comparação com o mês anterior. Após registrar alta de 0,89% em abril, as projeções de mercado para a leitura atual flutuam entre 0,44% e 0,68%, sinalizando um alívio pontual nos preços ao consumidor, segundo dados compilados pelo Money Times.

O movimento de desaceleração é sustentado majoritariamente pela dinâmica dos preços administrados, com destaque para a gasolina. A trégua no setor de energia, que havia pressionado o índice em abril devido às tensões geopolíticas no Oriente Médio, surge agora como o principal fator de moderação, ainda que o cenário de incertezas externas continue a pairar sobre as projeções de longo prazo.

O papel dos preços administrados

A leitura de maio reflete um ajuste pontual na composição dos preços administrados. Além da gasolina, o arrefecimento nos bens industriais contribui para o resultado, contrastando com o reajuste anual de medicamentos que impactou o mês anterior. A análise do Banco Daycoval aponta que, embora a gasolina alivie o índice, a energia elétrica residencial atua em sentido oposto.

O acionamento da bandeira tarifária amarela é, atualmente, o principal vetor de pressão dentro do grupo de administrados. Esse cenário ilustra a fragilidade do controle inflacionário, onde a melhora em um item de peso é rapidamente compensada por pressões estruturais em outros, mantendo a volatilidade do IPCA-15 em níveis que exigem monitoramento constante por parte dos agentes econômicos.

A resiliência dos serviços

Enquanto os bens industriais e combustíveis dão sinais de moderação, o setor de serviços permanece como o ponto de maior preocupação para o Banco Central. A expectativa é de que itens sensíveis à atividade econômica, especialmente aqueles intensivos em mão de obra, continuem a apresentar pressões altistas. O Banco Daycoval estima que os serviços subjacentes subam de 0,45% em abril para 0,52% em maio.

Essa dinâmica sugere que a inflação de serviços, por ser mais inercial e atrelada ao mercado de trabalho, oferece maior resistência à política de juros. A divergência entre a queda dos preços de bens e a persistência nos serviços cria um desafio duplo para a autoridade monetária, que precisa calibrar a taxa de juros sem desaquecer excessivamente a economia ou permitir que a inflação de serviços se torne estrutural.

Tensões externas e riscos climáticos

O horizonte para 2026, projetado em 4,7% pelo Daycoval, carrega um viés de alta que vai além dos indicadores de curto prazo. O conflito no Oriente Médio, que impacta diretamente a cotação global do petróleo, e o risco de um fenômeno El Niño mais severo no segundo semestre são variáveis críticas que podem reverter o alívio observado agora.

Esses fatores externos e climáticos funcionam como limites à eficácia da política monetária local. A capacidade do Banco Central de ancorar as expectativas dependerá de como a economia brasileira absorverá choques de oferta que estão fora do controle doméstico, exigindo uma postura de cautela redobrada nas próximas reuniões do Copom.

O desafio da ancoragem

O que permanece incerto é a velocidade com que o mercado ajustará suas expectativas caso a inflação de serviços não ceda nos próximos meses. A resiliência do mercado de trabalho e o consumo das famílias são variáveis que o Banco Central continuará a observar com lupa, buscando entender se a inflação de serviços é um resquício de uma demanda aquecida ou um problema de oferta de mão de obra.

O cenário de maio reforça a necessidade de observar os núcleos da inflação com atenção. Se a desaceleração for apenas um evento isolado devido aos combustíveis, a pressão sobre os serviços pode ditar o tom da política monetária pelo resto do ano. O equilíbrio entre o alívio imediato e a persistência dos serviços ditará o ritmo da convergência para a meta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times