O governo iraniano introduziu uma nova estratégia para fortalecer seu aparato de segurança: a criação de escolas de polícia voltadas para o recrutamento e doutrinação de jovens. Inicialmente, 400 estudantes serão admitidos em três províncias, com o objetivo declarado de formar a próxima geração de policiais com conhecimento disciplinar e lealdade ao regime. Esta medida representa uma evolução na tática do governo, que busca moldar a lealdade política desde cedo, antes mesmo da entrada formal no serviço policial.

A história das forças de segurança na República Islâmica é marcada por uma profunda desconfiança em relação à fidelidade das instituições herdadas da era pré-revolucionária. Após 1979, comitês revolucionários foram criados para garantir a ordem política e reprimir a oposição. Em 1991, esses comitês foram fundidos com a polícia e a gendarmeria, formando a Niru-ye Entezami-ye Jomhuri-ye Eslami (NAJA). Desde então, a profissionalização da polícia no Irã esteve intrinsecamente ligada à sua capacidade de controle social, vigilância e defesa do regime, com comandantes frequentemente oriundos da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC).

Doutrinação Antecipada: A Nova Fronteira da Lealdade

A criação de escolas de polícia de nível secundário é um passo significativo na estratégia de controle do regime iraniano. Ao focar em adolescentes, o governo busca incutir valores ideológicos e lealdade ao sistema antes que influências externas possam moldar a visão de mundo desses futuros agentes. Essa abordagem antecipa o processo de recrutamento, que historicamente dependia de redes religiosas, famílias de mártires ou membros da milícia Basij. A ideia é formar um corpo policial intrinsecamente alinhado com a filosofia do regime, onde o compromisso ideológico (Taahod) precede a especialização técnica (Takhasus).

Historicamente, o regime tem se preocupado mais com a lealdade política do que com a expertise profissional, especialmente em organizações de segurança. Métodos como triagem ideológica, doutrinação em massa e recrutamento de indivíduos ligados ao sistema foram amplamente utilizados. As escolas de polícia agora oferecem um canal mais direto e organizado para a socialização e seleção de jovens, permitindo ao regime um controle mais granular sobre quem ingressa em suas forças repressivas e como são formados.

Do Recrutamento Voluntário à Formação Obrigatória

A estratégia de moldar a juventude não é inteiramente nova. Em 2010, o Irã tentou formar um corpo policial voluntário entre os jovens, conhecido como "Polícia Honorária". Havia dois níveis: voluntários acima de 18 anos para tarefas limitadas de aplicação da lei e adolescentes acima de 15 anos para atividades educacionais e de conscientização. Alguns desses voluntários atuavam como informantes em suas comunidades em troca de benefícios, como prioridade em futuras contratações. As novas escolas de polícia podem ser vistas como uma versão mais estruturada e profissionalizada dessa ideia, transformando um envolvimento voluntário e temporário em um caminho formal para o serviço policial.

A diferença crucial reside na natureza do engajamento. O que antes era voluntário e limitado agora se torna parte de um processo de preparação mais formal e prolongado para o sistema de segurança e polícia. Isso sugere uma necessidade crescente do regime de garantir não apenas a lealdade, mas também a competência e a adequação ideológica dos seus agentes, especialmente diante de um cenário social e político volátil.

Implicações para a Sociedade e o Controle Estatal

Essa nova abordagem tem implicações profundas para a sociedade iraniana. Ao recrutar e doutrinar jovens desde cedo, o regime busca criar uma nova geração de forças de segurança que sejam menos suscetíveis a dissidências e mais alinhadas com os valores conservadores e religiosos do governo. Isso pode intensificar o fosso cultural entre as forças de segurança e a população, particularmente a juventude, que em geral é mais secular e progressista. A "Basijização" da polícia nas décadas anteriores, que priorizava o recrutamento de membros da milícia Basij, já demonstrava essa tendência de fortalecimento do núcleo ideológico.

A expansão das capacidades policiais, historicamente, tem caminhado lado a lado com o aumento do poder de controle de protestos e vigilância social. As escolas de polícia representam um investimento a longo prazo para assegurar que o aparato de segurança continue a servir aos interesses do regime, mesmo em face de desafios internos e externos. A profissionalização, neste contexto, é sinônimo de fortalecimento da capacidade repressiva e de manutenção do poder.

Perguntas em Aberto e o Futuro da Segurança no Irã

Resta saber qual será o impacto a longo prazo dessa estratégia na eficácia e na percepção pública das forças policiais iranianas. A ênfase na doutrinação ideológica pode comprometer a capacidade da polícia de atuar de forma imparcial e eficaz na aplicação da lei, gerando atritos com setores da sociedade que buscam maior liberdade e reformas. A questão central é se essa formação precoce será suficiente para garantir a lealdade inabalável que o regime busca, ou se a própria juventude doutrinada poderá, eventualmente, questionar o sistema que a formou.

O sucesso dessa iniciativa dependerá de múltiplos fatores, incluindo a capacidade do regime de atrair e reter os melhores talentos jovens, a eficácia do currículo ideológico e a resposta da sociedade civil a essa nova forma de controle estatal. Observar como esses jovens policiais se comportarão em futuras crises e manifestações será crucial para avaliar o verdadeiro alcance dessa estratégia de instilar lealdade.

A criação de escolas de polícia para doutrinar jovens no Irã sinaliza uma aposta contínua na segurança e coerção como pilares da sobrevivência do regime. Ao focar na formação antecipada de seus agentes, Teerã busca consolidar um aparato de segurança intrinsecamente leal, moldando a próxima geração de guardiões do sistema islâmico. A eficácia e as consequências dessa estratégia de longo prazo, contudo, permanecem um ponto de atenção. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Persuasion