Raj e Sunny Singh Sandhu, fundadores da Vicus Ventures, oficializaram o fechamento de seu primeiro fundo com US$ 55 milhões. Em um mercado de venture capital frequentemente dominado por megafundos e rodadas de capital intensivo, a dupla optou por uma estratégia deliberadamente contida, recusando propostas de investimento superiores para preservar a agilidade e a capacidade de atuação próxima aos empreendedores.

A tese da Vicus, sediada entre Nova York e São Francisco, baseia-se na premissa de que, na era atual de abundância de capital, o diferencial competitivo não reside mais apenas no volume de recursos. Segundo a dupla, o valor real entregue aos fundadores está na construção de um ecossistema de suporte, um conceito que batizaram de "vila" — uma referência tanto às suas origens familiares na Índia quanto à necessidade de uma rede de apoio estruturada para startups em estágio inicial.

A origem da tese e o capital simbólico

A inspiração para o nome da firma vem do latim "vicus", que significa vila. Para os irmãos, o conceito vai além do marketing, refletindo uma filosofia de investimento que busca replicar o suporte comunitário que eles próprios vivenciaram em sua trajetória. Raj, ex-Verily, e Sunny, ex-Bain, desenharam a estrutura do fundo para que ela fosse pequena o suficiente para permitir uma intervenção direta e personalizada nas empresas do portfólio.

O valor de US$ 55 milhões carrega um simbolismo geográfico relacionado à região de Punjab, na Índia, conhecida como a "terra dos cinco rios". Mais do que o montante, a composição da base de investidores (LPs) destaca a rede que a dupla conseguiu articular. O fundo conta com 55 LPs, incluindo nomes de peso como General Catalyst, Kleiner Perkins, Jeff Wilke (ex-Amazon) e Mike Novogratz, além de executivos como Zak Brown, da McLaren Racing.

O mecanismo de 'network-as-a-service'

A estratégia da Vicus Ventures é o que muitos analistas classificam como o retorno a uma forma de venture capital mais artesanal e centrada no relacionamento. Em vez de apenas emitir cheques em branco, a firma propõe um modelo de "network-as-a-service", onde o principal ativo é a conexão dos fundadores com instituições e indivíduos capazes de acelerar a receita e a resiliência das empresas investidas.

Essa abordagem contrasta com a tendência recente de fundos que buscam escalar via volume. Ao manter o fundo "do tamanho certo", a Vicus pretende garantir que a diluição do fundador seja mínima e o impacto de suas conexões seja máximo. A tese é que, ao atuar como investidores "avançados" ou "forward deployed", eles conseguem alterar a trajetória de empresas como a Specter e a Avoca de maneira que um investidor puramente financeiro não conseguiria.

Implicações para o ecossistema de inovação

Para o mercado de venture capital, a postura da Vicus levanta questões sobre a sustentabilidade do modelo de megafundos. Enquanto grandes gestoras lutam para justificar seus retornos diante de cheques gigantescos, fundos menores e mais ágeis começam a atrair atenção por sua capacidade de oferecer valor agregado tangível. Esse movimento pode sinalizar uma mudança na demanda dos fundadores, que passam a priorizar parceiros estratégicos em detrimento de quem oferece apenas capital.

No Brasil, onde o ecossistema de startups ainda busca maturidade em relação ao suporte pós-investimento, a estratégia da Vicus serve como um paralelo importante. A ideia de que o capital é uma commodity e o suporte operacional é o verdadeiro diferencial é um desafio para as gestoras locais, que muitas vezes ainda se concentram apenas na originação e no fechamento do negócio, negligenciando a construção de redes de apoio robustas.

O futuro do venture capital artesanal

A grande dúvida que permanece é se o modelo de "vila" conseguirá escalar à medida que a Vicus buscar novos fundos e aumentar o tamanho do portfólio. A personalização extrema é, por definição, difícil de replicar em larga escala, o que coloca a firma diante de um dilema comum entre gestores que priorizam a qualidade do serviço sobre o volume de ativos sob gestão.

O sucesso da Vicus será medido não apenas pelo retorno financeiro aos seus 55 LPs, mas pela capacidade da dupla em manter a promessa de suporte direto enquanto o ecossistema que eles ajudam a construir se expande. Acompanhar a evolução dessa tese será essencial para entender se o mercado está, de fato, se movendo em direção a uma era de maior curadoria e menor dependência de capital cego.

A tese da Vicus Ventures sugere que o futuro do investimento em tecnologia pode não estar no tamanho do fundo, mas na profundidade das conexões que ele proporciona. A capacidade de transformar capital em influência e suporte operacional continua sendo a fronteira final para gestores que buscam se destacar em um mercado saturado de liquidez. Resta saber se o mercado seguirá essa tendência de nicho ou se a pressão por escala forçará uma mudança de rota. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune