A Islândia levará à 20ª Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza, em 2027, uma reflexão profunda sobre o papel das piscinas públicas como pilares da vida urbana. Sob o título "SOAK: Rituals of Collective Belonging", a exposição articula a cultura do banho não apenas como uma prática de lazer, mas como uma infraestrutura cívica essencial para a coesão social.
O projeto, comissionado por Halla Helgadóttir, da Iceland Design and Architecture, é curado por Marcos Zotes, sócio do escritório Basalt Architects. A iniciativa consolida a segunda participação islandesa selecionada via chamada pública, seguindo a trajetória iniciada na edição de 2025 com o projeto "Lavaforming".
A arquitetura como catalisador social
A proposta do pavilhão islandês explora como o design de espaços de banho influencia a interação humana e o sentido de comunidade. Em um contexto onde o isolamento urbano se torna um desafio crescente, a arquitetura da imersão coletiva surge como uma resposta estrutural, transformando o ato de banhar-se em um ritual de pertencimento compartilhado.
Historicamente, as piscinas na Islândia funcionam como centros de encontro, superando a função utilitária para se tornarem o equivalente moderno das ágoras gregas. A colaboração entre o Basalt Architects, o estúdio de design Gagarin e a artista Rán Flygenring busca traduzir essa dinâmica para o ambiente expositivo de Veneza.
Mecanismos de convivência urbana
O foco da curadoria reside na capacidade desses espaços de democratizar o acesso à convivência. Ao desenhar ambientes que integram natureza e infraestrutura, os arquitetos propõem uma reavaliação do espaço público como um domínio de igualdade, onde as barreiras sociais são temporariamente suspensas pelo ritual compartilhado da água.
Essa abordagem sugere que o design arquitetônico pode atuar como um mediador de tensões sociais. Ao priorizar o fluxo e a permanência, o projeto demonstra como a arquitetura pode facilitar encontros espontâneos, fortalecendo o tecido cívico através de intervenções que respeitam a escala humana e a topografia local.
Implicações para o urbanismo contemporâneo
Para planejadores urbanos e arquitetos ao redor do mundo, a experiência islandesa levanta questões sobre a resiliência das cidades. Em um momento de crescente digitalização das relações, a necessidade de infraestruturas físicas que promovam o contato direto torna-se um tema de urgência global, com paralelos possíveis em praças e parques brasileiros.
A transição da cultura do banho para o conceito de infraestrutura cívica sugere que o sucesso de um projeto arquitetônico não reside apenas na forma, mas na vitalidade social que ele é capaz de sustentar ao longo das décadas.
Perspectivas e incertezas
A eficácia dessa abordagem em diferentes contextos climáticos e geográficos permanece como um ponto de interrogação central. Como traduzir a cultura de banho islandesa, profundamente enraizada na geologia e na tradição local, para ambientes urbanos densos e com escassez de recursos hídricos?
A Bienal de 2027 servirá como um laboratório para testar se tais rituais podem ser adaptados como modelos de governança urbana. Observar a receptividade do público internacional será fundamental para entender se a arquitetura pode, de fato, ditar as regras da convivência no século XXI.
A discussão sobre a eficácia do design como ferramenta de coesão social continuará a permear os debates arquitetônicos até a inauguração em Veneza. O pavilhão islandês convida o espectador a refletir sobre quais espaços em nossas próprias cidades desempenham esse papel de infraestrutura cívica, ainda que de formas menos óbvias.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ArchDaily





