A certificadora britânica de créditos de carbono Isometric captou US$ 40 milhões, cerca de R$ 210 milhões, em uma rodada de investimento liderada pela AVP, braço de venture capital da seguradora francesa Axa. O capital será direcionado para escalar o uso de inteligência artificial na automação de processos de certificação, visando reduzir drasticamente o tempo entre a submissão de projetos e a emissão de créditos. A empresa, que fincou raízes no Brasil há pouco mais de um ano, busca capitalizar sobre a crescente demanda de desenvolvedores locais por maior previsibilidade operacional.

A movimentação ocorre em um momento de atrito no setor, marcado pela migração de grandes players de reflorestamento, como a Mombak, da americana Verra — líder histórica do mercado — para a plataforma da Isometric. Segundo reportagem do Capital Reset, a agilidade é o principal diferencial competitivo: enquanto a Verra opera com prazos médios de 18 meses, a Isometric promete concluir verificações em menos de três meses, utilizando algoritmos para analisar dados de satélite e sensores em tempo real.

A ruptura com o legado analógico

A Isometric posiciona-se como uma empresa nativa digital, distanciando-se das estruturas burocráticas e analógicas que consolidaram certificadoras tradicionais. O fundador, Eamon Jubbawy, traz a experiência de ter criado a Onfido, empresa de verificação de identidade digital, o que reflete diretamente na arquitetura da plataforma. O processo de certificação, que tradicionalmente dependia de fluxos manuais e trocas intermináveis de documentos em PDF, foi substituído por uma interface baseada em questionários dinâmicos e análise automatizada de dados.

Essa abordagem tecnológica permite que a empresa lide com 17 metodologias distintas e gerencie cerca de 150 projetos ativos. Ao automatizar a coleta e o cruzamento de informações, a Isometric libera sua equipe de 20 cientistas para focar em decisões complexas e auditorias críticas. A estratégia é clara: construir uma infraestrutura capaz de certificar bilhões de créditos na próxima década, transformando a velocidade de processamento em um ativo financeiro tangível para os desenvolvedores.

O mecanismo de incentivos no mercado de carbono

Um dos pontos mais disruptivos da Isometric reside em seu modelo de cobrança. Diferente da prática de mercado onde a desenvolvedora do projeto arca com os custos, na Isometric, a taxa é paga pelo comprador final dos créditos, como Google, Microsoft e JPMorgan. O objetivo declarado é mitigar conflitos de interesse, eliminando o incentivo implícito de certificar volumes maiores apenas para maximizar a receita da certificadora, um problema frequentemente associado a modelos de taxas cobradas diretamente de quem está sendo auditado.

Embora a taxa cobrada pela Isometric, entre US$ 2 e US$ 3 por crédito, seja superior aos cerca de US$ 0,50 da Verra, a empresa argumenta que a comparação direta é falha. O valor da Isometric já inclui os custos dos organismos independentes de validação e verificação (VVB), além de reduzir o custo de capital de giro dos desenvolvedores. Ao emitir créditos em prazos de 60 dias, a empresa alivia a pressão financeira sobre projetos que, sob o modelo tradicional, ficariam meses paralisados aguardando aprovações.

Tensões e desafios na operação brasileira

A entrada de novos atores como a Isometric é vista por especialistas da ONU como um passo positivo para quebrar o quase monopólio da Verra, mas não está isenta de riscos. A dependência excessiva de sensoriamento remoto levanta preocupações sobre a necessidade de validações presenciais, essenciais para lidar com as particularidades fundiárias e sociais do Brasil. A precisão da “régua” de carbono, que estima quanto CO2 está armazenado, depende da qualidade dos dados alimentados na plataforma, o que exige um rigor técnico constante.

O desafio para a Isometric será provar que sua escala tecnológica consegue absorver a complexidade do território brasileiro sem comprometer a integridade dos créditos. A empresa já possui dez projetos cadastrados no país e projeta dobrar esse número, apostando que a robustez dos dados acumulados pela IA compensará as limitações das auditorias remotas. A concorrência com a Re.green e outras desenvolvedoras que buscam alternativas à Verra sugere que o mercado está em um ponto de inflexão decisivo.

O futuro da certificação tecnológica

A incerteza que permanece é se o mercado financeiro global aceitará os novos padrões de certificação com o mesmo peso dos tradicionais. A transição para modelos baseados inteiramente em software exige um nível de confiança que só o tempo e a performance dos projetos certificados poderão consolidar. A capacidade da Isometric em manter a transparência enquanto escala sua base de fornecedores será o principal indicador de sucesso nos próximos anos.

O movimento da Isometric não apenas desafia a hegemonia da Verra, mas força uma modernização forçada em todo o ecossistema de créditos de carbono. A questão central deixa de ser apenas a preservação florestal em si, mas como a tecnologia pode garantir a rastreabilidade e a liquidez desses ativos, transformando-os em instrumentos financeiros confiáveis para as maiores corporações do mundo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Capital Reset