Em um raro alinhamento público, os economistas-chefe dos dois maiores bancos privados do país, Diogo Guillen (Itaú Unibanco) e Fernando Honorato (Bradesco), diagnosticaram o momento do Brasil para investidores. Durante o evento B3 Week, em São Paulo, ambos apontaram que o país está em uma posição vantajosa para capturar capital estrangeiro, que busca diversificação para além de ativos atrelados ao dólar.
A tese é que, apesar do cenário global incerto, o Brasil possui trunfos estruturais, mas a materialização dessa oportunidade depende de uma lição de casa que o país tem procrastinado: o ajuste das contas públicas.
A janela da energia e o risco fiscal
A atratividade brasileira se ancora em duas frentes. A primeira é a busca de investidores globais por diversificação, com mercados emergentes mostrando uma resiliência atípica em momentos de incerteza. A segunda, mais estrutural, é a riqueza do país em recursos naturais e, crucialmente, em energia — tanto fóssil quanto renovável.
Este último ponto ganha nova relevância com a explosão da demanda por eletricidade para alimentar data centers e modelos de inteligência artificial. O Brasil, com sua matriz energética limpa, poderia se tornar um destino natural para esses investimentos. Contudo, segundo os economistas, esse potencial esbarra no velho fantasma brasileiro: a incerteza fiscal, amplificada pela proximidade das eleições de 2026 e a falta de visibilidade sobre a trajetória da dívida no próximo governo.
O fator dólar no cálculo
Mesmo que a questão fiscal fosse endereçada, o cenário não depende apenas de fatores domésticos. A trajetória do real, um fator decisivo para o investidor estrangeiro, está intimamente ligada ao comportamento global do dólar. Uma postura mais rígida do Federal Reserve, o banco central americano, poderia fortalecer a moeda americana e pressionar todos os ativos de mercados emergentes.
Nesse contexto, Diogo Guillen, do Itaú, projeta um dólar na casa de R$ 5,30, um movimento que seria mais reflexo do ambiente internacional do que de uma crise puramente brasileira. A leitura é que o fluxo de capital para o Brasil enfrenta um duplo desafio: a necessidade de construir credibilidade fiscal interna e a dependência de um cenário externo que não está sob seu controle.
O recado dos economistas é pragmático. O Brasil tem cartas importantes na manga, impulsionadas por tendências globais de longo prazo. No entanto, o capital estrangeiro precisa de um mínimo de previsibilidade. Sem um plano fiscal crível e com a volatilidade cambial no radar, a janela de oportunidade pode se mostrar mais estreita do que parece.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times




