O Itaú Unibanco e a Eneva anunciaram um novo acordo de investimento que totaliza R$ 1,77 bilhão. A operação visa financiar parte do ambicioso plano de expansão de capital (capex) da companhia de energia. Embora formalmente configurada como uma compra de participação acionária pelo banco em uma subsidiária da Eneva, a natureza da transação é, na prática, a de um financiamento de dívida. Essa modalidade tem se mostrado uma alternativa cada vez mais comum e atrativa para grandes empresas do setor elétrico em um cenário de crédito mais restrito.

Uma fonte envolvida nas negociações, que pediu para não ser identificada, descreveu o formato como "mais atrativo em termos de custo e num mercado (de crédito) mais seco". Sob os termos do acordo, o Itaú, controlado pelas famílias Setubal, Villela e Moreira Salles, realizará um aporte no Eneva III, veículo que consolida as operações da empresa no Maranhão. Com isso, o banco passará a deter a totalidade das ações preferenciais dessa subsidiária. A Eneva, por sua vez, manterá o controle integral dos ativos por meio da posse de 100% das ações ordinárias. Adicionalmente, a companhia detém uma opção de recompra dessas ações preferenciais, que pode ser exercida a seu critério entre janeiro de 2031 e dezembro de 2032, ou antes, sob condições específicas.

Um Financiamento Disfarçado de Equity

À primeira vista, a operação pode parecer uma transação de participação acionária (equity), mas seu funcionamento prático assemelha-se a um empréstimo. O valor aportado pelo Itaú será quitado futuramente pela Eneva através da recompra das ações preferenciais, em condições previamente acordadas. A garantia para o banco reside na participação nos ativos da subsidiária e nos dividendos futuros associados às ações preferenciais. Este modelo não é inédito entre Eneva e Itaú, nem entre o banco e outras empresas do setor energético. No início deste ano, por exemplo, o Itaú celebrou um acordo similar com a Energisa, injetando R$ 1,4 bilhão em subsidiárias do grupo. Atualmente, o banco também está finalizando uma transação com a Equatorial Energia, envolvendo ações preferenciais de sua subsidiária de distribuição, cujo valor ainda não foi divulgado, mas foi aprovado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) na semana passada.

Expansão e Novos Projetos da Eneva

No caso específico da Eneva, o primeiro acordo de investimento com o Itaú foi estabelecido em 2023, também envolvendo uma participação minoritária no Eneva III. Nesta nova rodada, os recursos de R$ 1,77 bilhão serão direcionados para a conclusão da usina termelétrica Azulão II, com 590 MW de capacidade, em construção no Amazonas, e para o desenvolvimento de projetos que a Eneva arrematou no leilão de capacidade realizado em março. A companhia, cujo maior acionista é o BTG Pactual, recentemente assumiu a liderança como a maior geradora termelétrica do Brasil, superando a Petrobras. Atualmente, a Eneva opera mais de 7 GW e projeta ultrapassar os 9 GW apenas com a execução de projetos já contratados. A Azulão II tem previsão de início de operação comercial no primeiro trimestre de 2027, enquanto os empreendimentos do leilão de capacidade estão programados para operar entre 2028 e 2031.

A Busca por Fontes de Financiamento Alternativas

A crescente adoção de estruturas de financiamento como a celebrada entre Itaú e Eneva reflete um movimento mais amplo no setor elétrico brasileiro. Diante de um cenário de juros elevados e maior seletividade por parte dos credores tradicionais, empresas de energia buscam alternativas para viabilizar seus planos de expansão. A modalidade de "empréstimo via ações preferenciais" oferece vantagens como a flexibilidade na estrutura de capital e, potencialmente, um custo financeiro mais competitivo em comparação com linhas de crédito convencionais. Para bancos como o Itaú, essas operações representam uma forma de alocar capital em setores estratégicos, gerando receita e fortalecendo o relacionamento com grandes players do mercado, ao mesmo tempo em que mitigam riscos através de garantias tangíveis e opções de saída.

Implicações para o Setor e o Futuro

Esses mecanismos de financiamento alternativos podem ter implicações significativas para a dinâmica do setor elétrico. Ao facilitar o acesso a capital para projetos de grande porte, eles podem acelerar a expansão da capacidade de geração, especialmente em fontes que exigem investimentos vultosos, como as termelétricas a gás. Para a Eneva, a conclusão da Azulão II e a implementação dos projetos do leilão de capacidade são cruciais para consolidar sua posição de liderança. A dependência de estruturas de dívida disfarçadas de equity, contudo, levanta questões sobre a sustentabilidade a longo prazo e a transparência das estruturas financeiras. A capacidade de gerenciar essas opções de recompra e os fluxos de dividendos será fundamental para o sucesso dessas operações, tanto para a Eneva quanto para o Itaú.

As perguntas que ficam em aberto giram em torno da previsibilidade e da escalabilidade dessas transações. Com a Eneva utilizando essa ferramenta pela segunda vez com o Itaú e outras elétricas seguindo o mesmo caminho, é provável que vejamos mais acordos semelhantes no futuro. No entanto, a sustentabilidade dessas operações dependerá da conjuntura econômica, das regulamentações e da capacidade das empresas de honrarem seus compromissos de recompra. A análise contínua desses movimentos financeiros será essencial para entender o futuro do financiamento no setor de energia brasileiro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech