Jack Halberstam, um dos nomes mais influentes na teoria queer e de gênero das últimas três décadas, prepara o lançamento de seu próximo livro, 'Anarchitecture After Everything: A Trans Manifesto', previsto pela MIT Press para 2026. A obra marca uma transição em seu trabalho acadêmico, saindo da análise puramente cultural para o ambiente construído, onde explora a intersecção entre a transgeneridade e a arquitetura radical. Segundo entrevista concedida ao portal Hyperallergic, Halberstam utiliza o conceito de 'anarquitetura' — termo originalmente cunhado pelo artista Gordon Matta-Clark — para descrever o processo de desconstrução de estruturas físicas e sociais como um ato político fundamental.
Para o autor, a ideia central é que, antes de imaginarmos utopias, precisamos aprender a 'desfazer' o mundo que habitamos. Ao analisar como o ambiente urbano é moldado por lógicas de propriedade e binarismos de gênero, Halberstam argumenta que a transgeneridade oferece um ponto de vista único para questionar a rigidez dessas estruturas. O trabalho sugere que a resistência não reside apenas na busca por reconhecimento dentro de sistemas existentes, mas no desmantelamento das lógicas que excluem o que não se encaixa na norma.
A lógica da anarquitetura
A relação entre transgeneridade e arquitetura surge na análise de Halberstam como uma metáfora poderosa. Ele compara a intervenção de Gordon Matta-Clark em edifícios abandonados — criando aberturas e formas que desafiam o propósito original da estrutura — a uma espécie de cirurgia de redesignação sexual. Enquanto a arquitetura convencional é historicamente associada a uma figura masculina autoritária, que impõe ordem e dominação sobre o espaço, a anarquitetura propõe uma subversão desse poder.
Essa abordagem não se limita ao campo estético; ela carrega um peso político inerente ao ataque ao regime de propriedade privada. Halberstam conecta esse pensamento a movimentos anarquistas e a novas formas de organização social, como comunas queer, que buscam alternativas ao modelo de família nuclear e ao urbanismo excludente. A ideia de 'desconstruir' o espaço é, portanto, uma tentativa de abrir brechas onde novas formas de vida e de ser podem emergir sem as amarras da hegemonia tradicional.
A cultura pop como arquivo de resistência
Um dos diferenciais na trajetória de Halberstam é sua recusa em separar a alta teoria de produtos da cultura popular. Ele defende o uso do que chama de 'arquivo bobo', composto por filmes de animação e comédias que, embora voltados para o entretenimento, contêm críticas profundas às estruturas de poder. O autor observa que filmes como 'Monsters, Inc.' ou 'Finding Nemo' retratam, muitas vezes, a rebelião de indivíduos contra sistemas autoritários, oferecendo fantasias de fuga que adultos tendem a descartar como infantis.
Essa análise revela que a cultura pop atua como um campo onde o 'desvio' e a rebeldia são processados de forma oblíqua. Ao analisar comédias como 'Dude, Where's My Car?', Halberstam demonstra como gêneros marginalizados permitem dizer coisas que seriam inaceitáveis em contextos formais. Para o autor, o valor dessas obras reside justamente na sua capacidade de infiltrar ideias de resistência nas mentes do público sem que precisem se apresentar como panfletos políticos diretos.
O fim da era da construção de mundos
Halberstam questiona a obsessão contemporânea pela 'construção de mundos' (world-building), que tem dominado o pensamento queer desde os anos 1990. Ele argumenta que, no cenário político atual, marcado pelo populismo de direita e ataques globais contra pessoas trans, a tentativa de construir novos mundos pode soar, por vezes, colonial. Em vez disso, ele propõe o 'des-mundamento' (un-worlding) como uma estratégia mais urgente e necessária.
O foco na desconstrução não visa a destruição niilista, mas a criação de espaço para o desconhecido. Ao se recusar a oferecer um modelo utópico pronto, Halberstam enfatiza que a própria prática de desmantelar as opressões — por meio de ajuda mútua, novas formas de moradia e redistribuição de recursos — é o que revelará as possibilidades para o futuro. O projeto é, essencialmente, abrir mão de certezas para permitir que novas modalidades de existência se revelem na prática.
O futuro da teoria de gênero
Ao refletir sobre seus conceitos seminais, como a 'masculinidade feminina', Halberstam reconhece que as ferramentas linguísticas evoluíram com o discurso público sobre a transgeneridade. No entanto, ele mantém a relevância de suas categorias originais como formas de descrever estruturas específicas de experiência corporal. A discussão sobre o 'entre' e a resistência à classificação totalizante continua a ser o norte de sua investigação acadêmica.
O que permanece em aberto, contudo, é a forma como essas teorias se traduzirão em ações práticas diante da aceleração das crises globais. Halberstam não oferece respostas fechadas, preferindo manter o campo de possibilidades aberto para futuras experimentações sociais e políticas. O convite é para que o leitor observe as brechas nas estruturas que nos cercam e considere, seriamente, o potencial criativo contido no ato de desfazer o que foi imposto.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





