O som de uma guitarra distorcida costumava ser a única assinatura de Jack White, o arquiteto por trás da sonoridade crua do The White Stripes. No entanto, o cenário muda agora para o silêncio calculado de uma galeria em Londres, onde o músico se apresenta sob uma luz distinta: a de escultor. A exposição, intitulada "THESE THOUGHTS MAY DISAPPEAR", marca a estreia pública de uma faceta que White cultivou nas sombras, longe dos palcos que o transformaram em um ícone do rock contemporâneo.
A gênese de um encontro improvável
A ponte entre o rock e as artes visuais foi construída quase por acaso em 2021, quando White inaugurava uma filial da Third Man Records no Soho, em Londres. O prédio ficava estrategicamente posicionado em frente ao estúdio de Damien Hirst, figura central do movimento Young British Artists. O que começou como uma vizinhança casual evoluiu para uma colaboração inusitada. White chegou a realizar um concerto surpresa na varanda de Hirst, paralisando o tráfego local com o hino "Seven Nation Army". Foi nesse ambiente de efervescência criativa que os dois artistas compartilharam visões, e Hirst, ao ver os trabalhos secretos de White, insistiu que aquela obra precisava de um espaço próprio.
A estética da transformação
A transição de White para o campo das artes visuais não é, contudo, um movimento súbito. Ao longo de sua trajetória, ele sempre demonstrou uma inclinação quase metódica por uma identidade estética rigorosa, como visto no álbum "De Stijl", nomeado em homenagem ao movimento holandês de arte e design. Sua obra exposta na Newport Street Gallery, que inclui esculturas, mobiliário e fotografias, revela um profundo interesse pela ressignificação de objetos encontrados. Há, em cada peça, o eco de seu passado como estofador, profissão que exercia antes da fama, onde aprendeu a manipular materiais com precisão técnica.
A busca pela autonomia artística
White expressou uma preocupação clara em não ser reduzido ao estereótipo do músico que se aventura pelas artes como um passatempo. Ele busca que sua produção visual seja avaliada por seus próprios méritos, sem a sombra de sua persona musical. Segundo Hirst, a força do trabalho de White reside na capacidade de criar objetos surreais que exercem uma atração magnética e repulsiva simultaneamente. Essa dualidade é o núcleo da exposição, que desafia o espectador a separar o criador do mito do rock.
O horizonte da expressão visual
O que permanece em aberto é como o público e a crítica receberão essa nova faceta. A exposição, que se estende até setembro, levanta questões sobre os limites da identidade artística em um mundo que prefere rotular seus ídolos. White tenta, neste momento, colocar a música em segundo plano para que a escultura fale por si, mas a história de um artista é raramente compartimentada de forma tão limpa. Fica a dúvida se a obra de White conseguirá sustentar essa independência ou se será sempre lida como um desdobramento de sua sonoridade.
Ao observar os objetos esculpidos por White, o espectador é convidado a esquecer os acordes de guitarra e a se concentrar na textura e na forma. A arte, para ele, parece ser uma extensão da mesma urgência que o levou aos palcos, apenas traduzida para uma linguagem que não depende do volume para ser ouvida. O tempo dirá se essa incursão é um capítulo isolado ou o início de uma nova trajetória criativa. Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





